quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

‘A educação não pode ignorar a curiosidade das crianças’, diz Edgar Morin

Edgar Morin, pseudônimo de Edgar Nahoum, nasceu em Paris, em 8 de julho de 1921, é um sociólogo e filósofo francês. Pesquisador emérito do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique). Formado em Direito, História e Geografia, realizou estudos em Filosofia, Sociologia e Epistemologia. É considerado um dos principais pensadores sobre a complexidade. Autor de mais de trinta livros, entre eles: O método (6 volumes), Introdução ao pensamento complexo, Ciência com consciência e Os sete saberes necessários para a educação do futuro. Durante a Segunda Guerra Mundial, participou da Resistência Francesa. É considerado um dos pensadores mais importantes do século XX e XXI.

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Nesta entrevista, Morin critica o modelo ocidental de ensino e diz que o professor tem uma missão social, por isso, segundo ele, “é preciso educar os educadores”.

Na sua opinião, como seria o modelo ideal de educação?

A figura do professor é determinante para a consolidação de um modelo “ideal” de educação. Através da Internet, os alunos podem ter acesso a todo o tipo de conhecimento sem a presença de um professor. Então eu pergunto, o que faz necessária a presença de um professor? Ele deve ser o regente da orquestra, observar o fluxo desses conhecimentos e elucidar as dúvidas dos alunos. Por exemplo, quando um professor passa uma lição a um aluno, que vai buscar uma resposta na Internet, ele deve posteriormente corrigir os erros cometidos, criticar o conteúdo pesquisado. É preciso desenvolver o senso crítico dos alunos. O papel do professor precisa passar por uma transformação, já que a criança não aprende apenas com os amigos, a família, a escola. Outro ponto importante: é necessário criar meios de transmissão do conhecimento a serviço da curiosidade dos alunos. O modelo de educação, sobretudo, não pode ignorar a curiosidade das crianças.

Quais são os maiores problemas do modelo de ensino atual?

O modelo de ensino que foi instituído nos países ocidentais é aquele que separa os conhecimentos artificialmente através das disciplinas. E não é o que vemos na natureza. No caso de animais e vegetais, vamos notar que todos os conhecimentos são interligados. E a escola não ensina o que é o conhecimento, ele é apenas transmitido pelos educadores, o que é um reducionismo. O conhecimento complexo evita o erro, que é cometido, por exemplo, quando um aluno escolhe mal a sua carreira. Por isso eu digo que a educação precisa fornecer subsídios ao ser humano, que precisa lutar contra o erro e a ilusão.

O senhor pode explicar melhor esse conceito de conhecimento?

Vamos pensar em um conhecimento mais simples, a nossa percepção visual. Eu vejo as pessoas que estão comigo, essa visão é uma percepção da realidade, que é uma tradução de todos os estímulos que chegam à nossa retina. Por que essa visão é uma fotografia? As pessoas que estão longe, são pequenas, e vice-versa. E essa visão é reconstruída de forma a reconhecermos essa alteração da realidade, já que todas as pessoas apresentam um tamanho similar. Todo conhecimento é uma tradução, que é seguido de uma reconstrução, e ambos os processos oferecem o risco do erro. Existe um outro ponto vital que não é abordado pelo ensino: a compreensão humana. O grande problema da Humanidade é que todos nós somos idênticos e diferentes, e precisamos lidar com essas duas ideias que não são compatíveis. A crise no ensino surge por conta da ausência dessas matérias que são importantes ao viver. Ensinamos apenas o aluno a ser um indivíduo adaptado à sociedade, mas ele também precisa se adaptar aos fatos e a si mesmo.

O que é a transdisciplinaridade, que defende a unidade do conhecimento?

As disciplinas fechadas impedem a compreensão dos problemas do mundo. A transdisciplinaridade, na minha opinião, é o que possibilita, através das disciplinas, a transmissão de uma visão de mundo mais complexa. O meu livro “O homem e a morte” é tipicamente transdisciplinar, pois busco entender as diferentes reações humanas diante da morte através dos conhecimentos da pré-história, da psicologia, da religião. Eu precisei fazer uma viagem por todas as doenças sociais e humanas, e recorri aos saberes de áreas do conhecimento, como psicanálise e biologia.

Como a associação entre a razão e a afetividade pode ser aplicada no sistema educacional?

É preciso estabelecer um jogo dialético entre razão e emoção. Descobriu-se que a razão pura não existe. Um matemático precisa ter paixão pela matemática. Não podemos abandonar a razão, o sentimento deve ser submetido a um controle racional. O economista, muitas das vezes, só trabalha através do cálculo, que é um complemento cego ao sentimento humano. Ao não levar em consideração as emoções dos seres humanos, um economista opera apenas cálculos cegos. Essa postura explica em boa parte a crise econômica que a Europa está vivendo atualmente.

A literatura e as artes deveriam ocupar mais espaço no currículo das escolas? Por quê?

Para se conhecer o ser humano, é preciso estudar áreas do conhecimento como as ciências sociais, a biologia, a psicologia. Mas a literatura e as artes também são um meio de conhecimento. Os romances retratam o indivíduo na sociedade, seja por meio de Balzac ou Dostoiévski, e transmitem conhecimentos sobre sentimentos, paixões e contradições humanas. A poesia é também importante, nos ajuda a reconhecer e a viver a qualidade poética da vida. As grandes obras de arte, como a música de Beethoven, desenvolvem em nós um sentimento vital, que é a emoção estética, que nos possibilita reconhecer a beleza, a bondade e a harmonia. Literatura e artes não podem ser tratadas no currículo escolar como conhecimento secundário.

Qual a sua opinião sobre o sistema brasileiro de ensino?

O Brasil é um país extremamente aberto a minhas ideias pedagógicas. Mas a revolução do seu sistema educacional vai passar pela reforma na formação dos seus educadores. É preciso educar os educadores. Os professores precisam sair de suas disciplinas para dialogar com outros campos de conhecimento. E essa evolução ainda não aconteceu. O professor possui uma missão social, e tanto a opinião pública como o cidadão precisam ter a consciência dessa missão.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Saltadores de muros

Os muros são muros, obras verticais de engenharia que cercam e delimitam um espaço determinado. Existem de todos os tipos, materiais e tamanhos.  No entanto, sua função central, independente da forma que é elaborado, é a mesma: impedir o acesso a um determinado espaço (em sua multidimensionalidade). Metaforicamente, o conceito de muro tem outro significado/simbolismo. Os esportistas, entendem os muros como os limites de sua performance. Nesse caso, não existe uma barreira real, concreta, a ser transposta. Os limites parecem estar na mente e no corpo.

Frente ao muro metafórico, basicamente pode-se tomar duas ações: tentar atravessá-lo ou abandonar a ideia de transpô-lo. Ambas as opções e suas nuances, indicam atitudes opostas em relação à vida. A primeira ação de romper o muro, revela a percepção das barreiras como formas de crescimento, como obstáculos construtivos e potencializadores de suas qualidades. A segunda ação, escolhendo não ultrapassar os muros, mostra-se uma alternativa menos otimista.

Existem várias formas de atravessar muros. Pode-se parar nele e esperar o processo de intemperismo fazê-lo ruir permitindo a passagem... Outra opção é se colocar na posição do impossível; “ninguém até hoje conseguiu” ou “isso não é para mim” são frases que irão amenizar seu medo de tentar cruzar os muros e mantê-lo(a) com a consciência tranquila mudando de ideia apenas quando um exemplo próximo conseguir tal proeza (ou milagre). Essas frases são perigosas, porque podem contaminar seu meio social, produzindo os terríveis efeitos da “incapacidade”. Somado a isso, encontramos com certa frequência pessoas com a habilidade de detectar intransponibilidade em qualquer “murinho” que encontramos durante nossas caminhadas.

Podemos passar pelas portas dos muros, embora sejam raras de encontra-las... podemos saltar os muros... podemos derrubar os muros, partindo da ajuda mútua inflamada pela coletividade. Independente da forma de passagem (e podemos cometer erros na escolha do modo), passar para o outro lado implica mudanças no cenário social/cotidiano.

Suponho eu que os indivíduos nascem predispostos a saltar os muros que vão surgindo um após o outro, mas acabam preferindo ou são compelidos a ficar estáticos. Existem pessoas de todos os tipos, somos plurais, mas não podemos permitir que os muros nos mantenham paralisados em um espaço de confinamento, ainda mais num contexto cheio de obstáculos, como por exemplo o acesso à educação. Então é ótimo estar cercado de pessoas dispostas a pular e destruir muros e não importa o quão alto eles sejam, as vezes sofremos um “jab” ficamos tontos, mas logo levamos o muro a “knockout” e novas experiências são absorvidas. Talvez tenha chegado a hora de nós educadores populares decidirmos demolir os muros da educação.


Sou negro, pobre e morador da Maré, sempre fui íntimo dos muros e sempre os derrubei...     


Luiz Lourenço

A face do imperialismo no século XXI

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Países ricos falam em “ajuda” mas capturam dos pobres 2 trilhões de dólares líquidos por ano. Juros e transferências via paraísos fiscais compõem a conta.

Por Jason Hickel | Tradução: Inês Castilho | Imagem: Diego Rivera, Sonho de uma tarde de domingo na avenida central (1947, detalhe)

Há tempos circula uma convincente história sobre a relação entre países ricos e pobres. Diz a história que as nações ricas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) doam generosamente parte de sua riqueza para as nações mais pobres do Sul global, para ajudá-las a erradicar a pobreza e impulsioná-las na escada do desenvolvimento. Sim, durante o colonialismo as potências ocidentais podem ter enriquecido extraindo recursos naturais e trabalho escravo de suas colônias – mas isso tudo seria passado… Atualmente, elas doam mais de US$ 125 bilhões  (cerca de R$ 400 bilhões) por ano – uma sólida evidência de boa vontade.
Essa história é tão amplamente propagandeada pela indústria da assistência e pelos governos do mundo rico, que passamos a considerá-la como certa. Mas os fatos não são tão simples assim.
A organização Global Financial Integrity (GFI), que luta contra os fluxos financeiros ilegais e tem base nos EUA, e o Centre for Applied Research at the Norwegian School of Economics (Centro de Pesquisa Aplicada da Escola de Economia da Noruega) publicaram recentemente alguns dados fascinantes. Apuraram todos os recursos financeiros que são transferidos, a cada ano, entre os países ricos e os países pobres: não só ajuda, investimentos estrangeiros e fluxos comerciais (como fizeram os estudos anteriores), mas também transferências não-financeiras tais como cancelamento da dívida, transferências unilaterais tais como remessas de dinheiro por trabalhadores, e fuga de capitais clandestinos (falo mais sobre isso posteriormente). Que eu saiba, é a avaliação mais abrangente jamais realizada sobre transferências de recursos.
O que eles descobriram é que o fluxo de dinheiro que vai dos países ricos para os países pobres torna-se pálido, quando comparado ao fluxo que corre na direção contrária.
Em 2012, último ano em que os dados foram registrados, os países em desenvolvimento receberam um total de US$ 1,3 trilhões (R$ 4,19 trilhões), incluindo todo tipo de ajuda, investimentos e remessas do exterior. Naquele mesmo ano, contudo, cerca de US$ 3,3 trilhões (R$ 10,64 trilhões) vazaram para fora destes mesmos países. Em outras palavras, os países em desenvolvimento mandaram para o resto do mundo US$ 2 trilhões a mais do que receberam. Se olharmos todos os anos, desde 1980, esse escoamento chega ao impressionante total de US$ 16,3 trilhões (R$ 52,54 trilhões). É o quanto foi drenado do Sul global nas últimas décadas. Para dar uma noção dessa escala, US$ 16,3 trilhões é aproximadamente o PIB dos Estados Unidos.
Isso significa que a narrativa convencional do desenvolvimento tem seu lado sombrio. A ajuda está, efetivamente, correndo ao contrário. Países ricos não estão desenvolvendo países pobres; países pobres é que estão desenvolvendo os ricos.
Em que consistem esses grandes fluxos? Parte são pagamentos da dívida. Os países em desenvolvimento desembolsaram mais de US$ 4,2 trilhões (R$ 13,54 trilhões) só em pagamento de juros desde 1980 – em transferência de dinheiro direta aos grandes bancos em Nova York e Londres, numa escala que torna nanica a ajuda que eles receberam durante o mesmo período. Outra grande contribuição vem das rendas que estrangeiros têm com seus investimentos nos países em desenvolvimento e são repatriadas. Pense em todo o lucro que a British Petroleum extraiu das reservas de petróleo da Nigéria, por exemplo, ou que a Anglo-American retira das minas de ouro da África do Sul.
Mas, de longe, a maior parte do fluxo de dinheiro tem a ver com a fuga de capitais clandestinos – e geralmente ilícitos. O GFI calcula que países em desenvolvimento perderam, desde 1980, um total de US$ 13,4 trilhões (R$ 43,19 trilhões) com a evasão clandestina de capitais.
A maioria desses fluxos clandestinos acontece por meio do sistema internacional de comércio. Basicamente, corporações – tanto  estrangeiras quanto domésticas – informam preços falsos em suas faturas comerciais, de modo a enviar dinheiro de países em desenvolvimento para paraísos fiscais e jurisdições sigilosas, uma prática conhecida como “trade misinvoicing” (faturamento adulterado). O objetivo geralmente é a evasão fiscal, mas às vezes essa prática serve também para lavar dinheiro ou contornar o controle de capitais. Em 2012, os países em desenvolvimento perderam US$ 700 bilhões em razão do “trade misinvoicing”, que naquele ano superou em cinco vezes o recebimento de ajuda.
Empresas multinacionais também roubam dinheiro de países em desenvolvimento através da “same-invoice faking” (falsificação da mesma fatura), trocando lucros ilegalmente entre suas próprias subsidiárias, por meio da falsificação de preços das faturas comerciais nos dois lados. Por exemplo, uma subsidiária na Nigéria pode esquivar-se dos impostos locais transferindo dinheiro para uma subsidiária nas Ilhas Virgens Britânicas, onde a taxa de impostos é efetivamente zero e onde os fundos não podem ser rastreados.
O GFI não inclui o “same-invoice faking” em seus números totais por ele ser muito difícil de detectar, mas estima que seu valor chegue a outros US$ 700 bilhões (R$ 2,25 trilhões) anuais. E esses números cobrem apenas furto no comércio de bens. Se forem acrescidos ao mix os furtos por comércio de serviços, a evasão total de recursos líquidos sobe para US$ 3 trilhões (R$ 9,67 trilhões) anuais.
Isso é 24 vezes mais que o orçamento de ajuda. Em outras palavras, para cada US$ 1 de ajuda que recebem, os países em desenvolvimento perdem US$ 24 em saídas líquidas. Essa vazão os despoja de uma importante fonte de renda e finanças para o desenvolvimento. O relatório do GFI revela que as crescentes saídas levaram as taxas de crescimento econômico a declinar nos países em desenvolvimento, e as responsabiliza diretamente pela queda dos níveis de vida.
Quem deve ser responsabilizado por esse desastre? Considerando-se que a fuga de capitais ilegais significa tamanha parte do problema, esse é um bom ponto de partida. As empresas que mentem em suas faturas comerciais são claramente responsáveis; mas, por que razão é tão fácil para eles ficar impunes? No passado, as autoridades alfandegárias podiam deter transações que pareciam duvidosas, tornando quase impossível fraudar. Mas a OMC reclamou que isso tornava o comércio ineficiente, e desde 1994 os fiscais alfandegários receberam ordens de tomar os preços das faturas por seu valor de face, exceto em circunstâncias muito suspeitas, tornando difícil impedir as saídas ilícitas.
A fuga ilegal de capitais não seria possível sem os paraísos fiscais. E, quando se trata de paraísos fiscais, não é difícil identificar os culpados: há mais de 60 pelo mundo, a grande maioria controlada por meia dúzia de países ocidentais. Há paraísos fiscais europeus como Luxemburgo e Bélgica, e paraísos fiscais norte-americanos como Delaware e Manhattan. Mas, de longe, a maior rede de paraísos fiscais está centralizada em torno da cidade de Londres, que controla jurisdições sigilosas por todas as Dependências e Territórios Ultramarinhos da Coroa Britânica.
Em outras palavras, alguns dos países que gostam tanto de gabar-se de suas contribuições para ajuda exterior são os mesmos que possibilitam o furto em massa dos países em desenvolvimento.
A narrativa da ajuda começa a parecer um pouco ingênua quando levamos em conta esse fluxo reverso. Torna-se claro que ela apenas maquia a má distribuição de recursos pelo mundo. Leva a ver aqueles que se apropriam como “doadores”, recobrindo-os com uma espécie de superioridade moral. Impede aqueles que se importam com a pobreza global de entender o real funcionamento do sistema.
Os países pobres não precisam de caridade. Eles precisam de justiça. E justiça não é difícil de entregar. Poderíamos anular as dívidas excessivas dos países pobres, liberando-os para investir seu dinheiro em desenvolvimento ao invés de pagar juros de velhos empréstimos. Poderíamos fechar as jurisdições sigilosas e punir bancos e contadores que facilitem a evasão ilícita;. Poderíamos impor um tributo global sobre a renda das corporações para eliminar o incentivo ao deslocamento secreto do seu dinheiro em redor do mundo. Sabemos como resolver o problema. Mas fazê-lo iria contra os interesses de bancos e corporações poderosas, que extraem significativos benefícios materiais do sistema existente. A pergunta é: temos coragem?
Texto original: Outras Palavras

quinta-feira, 30 de junho de 2016

A quem interessa a doutrinação do ‘Escola Sem Partido’?

Por Leonardo Dallacqua de Carvalho

Quando este tema é chamado à baila, lembro do artigo do professor Christian Laville intitulado ‘A guerra das Narrativas‘, publicado na prestigiosa Revista Brasileira de História. Em síntese, o referido trabalho é um estudo realizado por Laville que demonstra como a narrativa histórica pode ser apropriada e (re)modelada segundo interesses específicos. No Japão, por exemplo, o autor cita a obrigatoriedade de uma certa ‘eufemização’ de alguns conceitos da história política daquele país para a construção de uma imagem positiva. Assim, quando o professor for explicar a invasão da China pelo Japão na década de 1930, ele deve utilizar o termo ‘progressão militar’, pois é mais suave que o termo ‘invasão’.

Os efeitos da exponencial catequização escolar são muito mais evidentes à luz do ambiente escolar do que qualquer outro suposto discurso. Frequentemente, religiões de matriz afrobrasileira são demonizadas; obras da literatura nacional que versam sobre candomblé ou umbanda sofrem uma espécie de Index Librorum Prohibitorum; a facultativa disciplina de Ensino Religioso, que deveria ser plural e aglutinadora do respeito à crença, tornou-se para muitos um palanque de disputa das religiões dominantes por cabeças.

Uma ‘Guerra das Narrativas’ está presente na política dos Estados, ora como uma Guerra Fria, intramuros das produções intelectuais, dos manuais e das reformas curriculares, ora como Guerra Campal, desnudada perante a sociedade. Todavia, o combate nunca deixou de ser travado. Com as propostas do ‘Escola Sem Partido‘, vivemos a Guerra Campal das narrativas. Travestida de uma suposta ‘democratização’ do ensino, tais propostas visam impor um modelo que opere como censura da liberdade de pensamento e como forma proibitiva de dissertar a respeito de alguns temas, principalmente aqueles de cunho ideológico considerados de esquerda. Se na ditadura militar a censura vinha acompanhada do famigerado fardamento verde, agora, ela veste a roupagem dos ‘cidadãos preocupados’. Esta censura faz parte de um projeto nebuloso de nação preocupada em impor uma narrativa histórica hegemônica de Brasil, seja ela no ofício de historiadores ou nos níveis de educação da população.

O ‘Escola Sem Partido‘ é uma reação de grupos que buscam neutralizar qualquer discussão social, plural e de contextualização histórica pensada na contestação da organização social/econômica hierárquica da sociedade brasileira. Sua falsa neutralidade não clama pela ‘ausência de ideologias’, mas pela imposição da sua ideologia como dominante, confeccionando um tipo de discurso padronizado. Basta entrar em qualquer sala de aula do País para compreender a falseabilidade da predominância de uma doutrinação de esquerda. Pergunte a uma classe do último ano do ensino médio quantos ali se denominam ‘esquerdistas’. Aliás, basta frequentar uma sala de professores para notar como o pensamento vem sofrendo uma guinada à direita nas últimas décadas. Mais ainda, o que se percebe, em algumas partes, é uma juventude seduzida por uma atmosfera radicalizada, guiada por amantes de torturadores e fanáticos religiosos.



Há pouco tempo, falava-se na remodelação do ensino de História ou até mesmo na supressão do seu conteúdo, restringindo-o ao máximo. A dita preocupação com a ‘doutrinação’ tenta iludir principalmente aqueles assustados com a atual conjuntura do extremismo e da polaridade política no País, sobretudo, oferecendo-lhes uma suposta neutralidade pacificadora. Uma miragem que beira a inocência, especialmente porque o ‘Escola Sem Partido‘ age como um instrumento ideológico de doutrinação ao medir forças com aquilo que elege como ‘problema’. Resta investigar a quem interessa tais medidas. Uma das respostas pode estar presente na bibliografia que o referido grupo insistentemente dissemina, recheada do viés doutrinário que lhes interessa. Em outras palavras, podemos questionar qual o partido do ‘Escola Sem Partido’.

No artigo de Laville, mencionado no início desse texto, o autor cita um trecho do livro do escritor tcheco Milan Kundera denominado ‘O Livro do Riso e do Esquecimento‘ (1978) que, oportunamente, serve para finalizarmos esta reflexão: “Para liquidar os povos, começa-se por lhes tirar a memória. Destroem-se seus livros, sua cultura, sua história. E uma outra pessoa lhes escreve outros livros, lhes dá outra cultura e lhes inventa uma outra História.


* Leonardo Dallacqua de Carvalho é graduado e mestre em História pela UNESP. Atualmente doutorando em História na Fundação Oswaldo Cruz-RJ

Texto Original: Blog tudo em debate

terça-feira, 10 de maio de 2016

Ler deveria ser proibido


A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.  Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social.

Por Guiomar de Grammont*


Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madamme Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram, meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem necessariamente ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas.

É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, podem levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, podem estimular um curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos, em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais, etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um. Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos. Para obedecer, não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submisso. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Alem disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos. A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.


Ler pode tornar o homem perigosamente humano.


*Guiomar de Grammont é mineira de Ouro Preto, historiadora, filósofa e escritora. Já publicou contos, antologias, livros sobre historiografia e o romance A casa dos espelhos.







































































































quarta-feira, 4 de maio de 2016

Você é uma pessoa anarquista? A resposta pode te surpreender!

Por David Graeber


É provável que você já tenha ouvido falar sobre quem são xs anarquistas e no que elas/eles supostamente acreditam. Provável que quase tudo o que você tenha ouvido não tenha sentido algum. Muitas pessoas parecem pensar que as pessoas anarquistas são defensores da violência, do caos e da destruição, e que elas se opõem a todas as formas de ordem e organização, que elas são niilistas malucas que apenas querem explodir tudo. Na realidade, nada pode estar mais longe da verdade. Anarquistas são simplesmente pessoas que acreditam que os seres humanos são capazes de comportar-se de uma maneira razoável sem terem que ser forçados a isso. É uma noção bastante simples, na verdade. Mas é a noção que os ricos e poderosos sempre acharam ser a mais perigosa.



Na sua forma mais simples, as crenças anarquistas podem ser resumidas a duas premissas. A primeira é que os seres humanos são, sob circunstâncias normais, tão razoáveis e decentes quanto eles tem a permissão para serem, e daí que eles podem se autogerir e organizar as suas comunidades sem que seja necessário dizer-lhes como. A segunda é que o poder corrompe. Acima de tudo, o anarquismo é apenas uma questão de ter a coragem para tomar os princípios mais simples da decência comum que todos nós vivemos, e segui-las até as suas conclusões lógicas. Por mais estranho que isso pareça, nas mais importantes formas, você provavelmente já é uma/um – você apenas não se tocou disso.
Talvez ajude pegar alguns exemplos da vida cotidiana:
Se há uma fila para pegar um ônibus lotado, você espera a sua vez e evita se acotovelar com os outros mesmo na ausência da polícia?
Se você respondeu que “sim”, então você está acostumado a agir como uma/um anarquista! O princípio anarquista mais básico é a “autogestão”: a premissa de que os seres humanos não precisam ser ameaçados com punição para serem capazes de chegar a entendimentos razoáveis com os outros e tratá-los com dignidade e respeito.
Todas as pessoas acreditam que sejam capazes de comportar-se razoavelmente por elas mesmos. Se elas acham que as leis e a polícia são necessárias, é apenas porque acreditam que as outras pessoas não são capazes. Mas, se você pensar a respeito, as outras pessoas não se sentem da mesma maneira sobre você? Os anarquistas argumentam que quase todo o comportamento anti-social que nos faz crer necessário ter exércitos, polícia, prisões e governos para controlar as nossas vidas é, na verdade, causado pelas injustiças e desigualdades sistemáticas que os mesmos exércitos, polícia, prisões e governos tornam possíveis. É um círculo vicioso. Se as pessoas estão acostumadas a serem tratadas como se as opiniões delas não fossem importantes, elas ficam mais propensas a se tornarem bravas e cínicos, até mesmo violentas – o que, é claro, deixa mais fácil para os poderosos dizerem que as suas opiniões não importam. Uma vez que elas entendem que as suas opiniões importam sim do mesmo jeito que a opinião de qualquer outro, eles tendem a se tornarem extraordinariamente compreensíveis. Para resumir a história: os anarquistas acreditam que para a maior parte das vezes é o poder e os efeitos do poder o que torna as pessoas estúpidas e irresponsáveis.
Você é membro de um clube de esportes ou qualquer outra organização voluntária onde as decisões não são impostas por um líder mas feitas baseadas no consentimento geral?
Se você respondeu que sim, então você pertence a uma organização que trabalha com princípios anarquistas! Outro princípio anarquista básico é a “associação voluntária”. É apenas uma questão de aplicar princípios democráticas na vida cotidiana. A única diferença é que as pessoas anarquistas acreditam que deva ser necessário criar uma sociedade na qual tudo possa ser organizado seguindo essas linhas, todos os grupos baseados no livre consentimento de seus membros, e então, que todos os tipos de organização, seja militares, burocráticas ou grandes corporações, baseadas em cadeias de comando, não seriam mais necessários. Talvez você não acredite que isso seja possível. Talvez sim. Mas toda vez que você chega a um acordo pelo consenso ao invés de ameaças, toda vez que você faz um acordo voluntário com outras pessoas, chega a um entendimento, ou alcança um compromisso tomando a devida consideração das necessidades e da situação particular do outro, você está sendo uma/um anarquista – mesmo se não tenha percebido isso.
O anarquismo é apenas a maneira que as pessoas agem quando elas são livres para fazer do jeito que elas escolheram, e quando elas lidam com os outros que são igualmente livres –  e, portanto, estão conscientes da responsabilidade para com os outros que isso acarreta. Isto nos leva a outro ponto crucial: que enquanto as pessoas possam ser razoáveis e compreensivas quando elas estão lidando com iguais, a natureza humana é tal qual que elas não podem adquirir confiança para isso quando recebem um poder sobre os outros. Dê a alguém tal poder, e esse alguém quase invariavelmente irá abusar dele de um jeito ou de outro.
Você acredita que a maioria dos políticos são egoístas e que não se importam em nada com o interesse público? Você pensa que nós vivemos em um sistema econômico que é estúpido e injusto?
Se você respondeu que sim, então você assinou a crítica anarquista da sociedade atual – no mínimo, nas suas linhas mais gerais. As pessoas anarquistas acreditam que o poder corrompe e que aqueles que gastam as suas vidas inteiras procurando poder são as últimas pessoas que deveriam tê-lo. Anarquistas acreditam que nosso presente sistema econômico está mais propenso a recompensar as pessoas pelo seu comportamento egoísta e inescrupuloso que por serem seres humanos decentes e responsáveis. A maioria das pessoas se sente assim. A única diferença é que a maioria das pessoas não acha que alguma coisa possa ser feita a respeito, ou de qualquer maneira – e isso é o que os servos fiéis dos poderosos estão sempre insistindo – qualquer coisa terminaria por deixar as coisas ainda piores.
Mas e se isso não for verdade?
Existe uma razão real pra acreditar nisso? Quando você pode fazer um teste, a maioria das atuais predições sobre o que aconteceria sem estados ou capitalismo terminam por não terem sentido algum. Por milhares de anos as pessoas viveram sem governos. Em muitas partes do mundo, as pessoas vivem fora do controle dos governos até hoje. Elas não matam umas às outras. Na maioria das vezes elas apenas levam as suas vidas da mesma maneira que qualquer pessoa a levaria. É claro, em uma sociedade complexa, urbana e tecnológica existem muito mais necessidades a serem organizadas: mas a tecnologia pode também facilitar a solução de alguns desses problemas. Na verdade, nós nem começamos a pensar como seriam as nossas vidas se a tecnologia estivesse realmente moldada a serviço das necessidades humanas. Quantas horas seriam necessárias realmente para trabalhar com o objetivo de manter a sociedade funcional – isto é, se nos livrássemos de todas as ocupações inúteis e destrutivas como telemarketing, advogados, carcereiros, analistas financeiros, experts em relações públicas, burocratas e políticos, e afastar as nossas melhores mentes científicas do arsenal espacial ou dos sistemas da bolsa de valores para mecanizar as tarefas perigosas ou desagradáveis como extração de carvão ou limpeza dos banheiros, e distribuir o trabalho restante entre todos igualmente? Cinco horas por dia? Quatro? Três? Duas? Ninguém sabe porque ninguém nem começou a fazer esse tipo de pergunta. Os anarquistas acham que essas são as perguntas que nós devemos começar a perguntar.
Você realmente acredita naquelas coisas que diz para as suas crianças (ou que seus pais te contaram)?
“Não importa quem começou”. “Duas coisas erradas não fazem uma certa”. “Limpe a sua própria sujeira”. “Pense no próximo…” “Não seja mau com as pessoas apenas porque elas são diferentes”. Talvez devêssemos decidir se estamos mentindo para as nossas crianças quando lhes falamos sobre o certo e o errado, ou se estamos com vontade de tomar as nossas próprias premissas seriamente. Porque se você tomar esses princípios morais às suas conclusões lógicas, você chega no anarquismo.
Tome o princípio de que duas coisas erradas não fazem uma certa. Se você levar isso a sério, só isso poderia derrubar quase a base inteira para a guerra e para o sistema de justiça penal. O mesmo serve para o compartilhar: nós sempre estamos dizendo às nossas crianças para aprenderem a compartilhar, para serem compreensíveis com as necessidades alheias, para ajudarem umas às outras; para depois sair para o mundo real onde nós assumimos que todos são naturalmente egoístas e competitivos. Mas uma pessoa anarquista apontaria: na verdade, o que dizemos às nossas crianças é certo. Quase toda façanha na história humana, toda descoberta ou acontecimento que melhorou a vida das pessoas, foi conseguido através da cooperação e da ajuda mútua; mesmo agora, a maioria de nós gasta a maior parte do nosso dinheiro em nossos amigos, amigas e famílias do que em nós mesmos; enquanto não existam dúvidas sobre se sempre existirão pessoas competitivas no mundo, não existe razão para que uma sociedade tenha que ser baseada em encorajar tal comportamento, deixando as pessoas sozinhas para competirem sobre as necessidades básicas da vida. Uma sociedade que encoraja a competição apenas serve aos interesses das pessoas no poder, que querem que vivamos com medo um do outro. É por isso que anarquistas conclamam uma sociedade baseada não apenas na livre associação mas também na ajuda mútua.


Anarquismo
O fato é que a maioiria das crianças cresce acreditando em uma moralidade anarquista e, então, gradualmente tem que perceber que o mundo adulto não funciona dessa maneira. É por isso que tantas se tornam rebeldes, ou alienadas, mesmo suicidas como adolescentes, e finalmente, resignadas e amarguradas como adultos; o seu único apoio, frequentemente, sendo a capacidade de criar crianças suas e fingir que o mundo é justo. Mas e se nós pudéssemos começar a construir um mundo o qual fosse realmente fundado nos princípios da justiça? Esse não seria o melhor presente que alguém pudesse dar às suas crianças?
Você acredita que os seres humanos são fundamentalmente corruptos e maus, ou que certos tipos de pessoas (mulheres, pessoas de cor, gente comum que não é rica ou altamente educada) são espécimes inferiores, destinados a serem governados pelos melhores?
Se você respondeu que “sim”, então, bom, parece que você não é um anarquista depois de tudo. Mas, se você respondeu “não”, então existem chances de que você tenha assinado 90% dos princípios anarquistas e, querendo ou não, está vivendo a sua vida de acordo com eles. Toda vez que tratar um ser humano com consideração e respeito, você está sendo anarquista. Toda vez que você trabalha as suas diferenças com os outros chegando a um compromisso razoável, ouvindo o que os outros tem a dizer ao invés de deixar uma pessoa decidir por todos, você está sendo anarquista. Toda vez que você tem a oportunidade de forçar a alguém a fazer alguma coisa, mas decide apelar ao seu senso de razão e justiça, você está sendo anarquista. O mesmo vale para toda vez que você compartilha alguma coisa com uma pessoa amiga, ou decide quem vai lavar a louça, ou faz qualquer coisa com um olhar na justiça.
Agora, você pode objetar que isso é tudo muito bom como maneira para pequenos grupos se comportarem uns com os outros, mas gerir uma cidade ou um país é uma coisa completamente diferente. É claro, isso não é falso. Mesmo se você descentralizasse uma sociedade e desse a maior quantidade de poder possível às pequenas comunidades, ainda existiriam muitas coisas que precisariam ser coordenadas, desde trilhos de trem até decisões sobre as direções para pesquisa médica. Porém, apenas porque alguma coisa é complicada isso não significa que não possa ser feita. Apenas significa que será mais difícil. Na verdade, as pessoas anarquistas tem todos os tipos de ideias sobre como uma sociedade saudável e democrática poderia se autogerir. Para explicar isso, levaria bem mais do que um pequeno texto introdutório como este; de qualquer forma, nenhuma pessoa anarquista diz ter um plano perfeito. A verdade é que nós provavelmente não podemos imaginar a metade dos problemas que viriam à tona uma vez que tentássemos criar uma sociedade verdadeiramente democrática; mesmo assim, estamos confiantes de que, a ingenuidade humana sendo como é, tais problemas poderiam ser resolvidos. Ou: que eles podem ser resolvidos até que mantenhamos em espírito os nossos princípios básicos – os quais são, em análise final, simplesmente os princípios da decência humana fundamental.
David Graeber é anarquista, antropólogo e professor de antropologia social na Universidade de Londres. Tradução por Rede de Informações Anarquistas.