sábado, 26 de março de 2016

O retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador

O que faz de uma obra um clássico? Entre as razões, estão o reconhecimento de sua importância pelos pares e a sua capacidade de explicação de um fenômeno continuar válida ao longo do tempo. Essas condições estão presentes na obra de Albert Memmi, escrita na década de 1950, porém, passadas algumas décadas a obra mantém sua aura de atualidade.

Na primeira parte do livro, prefaciado por Jean-Paul Sartre, Memmi expõe o retrato do colonizador, que toma duas possíveis faces: aquele colonizador que recusa a si mesmo pela defesa do colonizado, mas nem por isso elimina a sua condição, e aquele colonizador que aceita a si mesmo e não apresenta as contradições do primeiro, sendo um ser naturalmente defensor da condição colonialista e de todos os males de miséria e de ignorância que ela produz.

Na segunda parte, o autor aborda o retrato do colonizado. Primeiramente, a sua condição é retratada de modo uniforme, ou seja, coletiva e de conotação negativa, utilizando-se da ideologia para a construção e o reforço dessa imagem. Segundo Memmi, “toda ideologia de combate compreende, como parte integrante de si mesma, uma concepção do adversário. Ao aceitar essa ideologia, as classes dominadas confirmam, de certa maneira, o papel que lhes foi atribuído. Isso explica, entre outras coisas, a relativa estabilidade das sociedades; a opressão é, de boa ou má vontade, tolerada pelos próprios oprimidos”.

 Em seguida, o autor explora a situação do colonizado em relação a seus valores, ao seu histórico, à amnésia cultural, a sua condição de carência etc. Para ele, “a sociedade colonizada é uma sociedade enferma em que a dinâmica interna não consegue mais produzir estruturas novas. Seu rosto endurecido pela história não passa de uma máscara, sob a qual ela sufoca e agoniza lentamente. Uma sociedade como essa não pode assimilar os conflitos de gerações, pois não se deixa transformar”.

 Por fim, Memmi expõe duas respostas possíveis desse colonizado: cultivar o amor pelo colonizador e o ódio de si, que o autor acha inapropriado, e aquela que é sua defesa, a revolta. De acordo com ele, “para o colonizado, não há outra saída a não ser a consecução do fim da colonização. E a recusa do colonizado só pode ser absoluta, isto é, não apenas revolta, mas superação da revolta, ou seja, revolução”.

O ponto central da obra é a negação da opressão colonizadora, que deve partir de uma consciência do colonizado de sua condição degradante para que este possa ter sua libertação completa, ou para a reconquista de si mesmo, fugindo de uma condição que desmoraliza, não só materialmente, mas espiritualmente também. Para tal, o colonizado deve não apenas se revoltar, mas, sim, fazer uma revolução.

Diante da contemporaneidade dos fatos, ainda há uma carência de obras em português, mas o livro de Memmi contempla de maneira satisfatória as origens das revoltas. O colonialismo analisado sob a ótica ocidental é abundante. Nesse caso, um ponto a mais de interesse dessa obra são a origem e o histórico do autor. Filósofo e sociólogo, Memmi nasceu na Tunísia, em 1920, ainda sob o domínio francês, e viveu as contradições de ter origem judaica em um mundo mulçumano. Após a independência, também não encontrou espaço na Tunísia liberta, optando por viver na própria França, onde lecionou no Centro Nacional de Pesquisa e na Universidade de Paris (Sorbonne).

Link para download do PDF - O retrato do Colonizado precedido do retrato do colonizador.

https://drive.google.com/open?id=0BzyjgIVXNVLGWU9wd3gwT2YzNVU

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A identidade europeia, o racismo e a Geografia Colonial

Segundo o dicionário Michaelis a palavra orientar significa: guiar, seguir um rumo, se adaptar a direção de pontos cardeais. Etimologicamente a construção do verbete orientar está associada à Oriente cujo significado é espacial, designando uma das formas de dividir planeta (em hemisférios).

É no oriente que estão localizadas algumas das mais antigas civilizações, entre elas a civilização chinesa. Na história do desenvolvimento das sociedades, inicialmente a centralidade do mundo estava localizada no oriente, sobretudo na China, que detinham domínio das artes (escrita, medicina, astronomia, etc), poderio econômico, militar, político e cultural. Dessa forma, o padrão de desenvolvimento sócio-político-cultural estava centrado no oriente, daí a origem da palavra orientar explicada anteriormente.

Durante esse período de domínio da “civilidade oriental”, a Europa era apenas um agrupamento de territórios onde inexistia o conceito de nação e muito menos o de identidade europeia. Dessa forma, o que hoje entendemos como Europa era apenas um “apêndice” da Ásia. Porém, a partir do advento das grandes navegações (associadas a formação dos Estados Nacionais), e consequente chegada dos europeus a América, essa situação de centralidade-periferia começa a inverter-se. Pois a partir da América, a Europa, inicialmente através dos Ibéricos começa a explorar de várias formas o Novo Mundo. Nesse mesmo momento, a Europa desenvolve a ideia de identidade europeia, algo até então inexistente entre os nativos do “velho mundo”.

A criação desse ideal europeu identitário redefiniu e criou novas identidades subalternas. O oriente passa por um rebaixamento de seu status, e “criam-se” as figuras dos índios, negros e mestiços. Essas passam a ser formas de identificação social inferiores ao “ideal humano” representado pelas figuras europeias. Tal processo é o primeiro momento de potencialização do racismo. Sobre o racismo na dominação colonial Aníbal Quijano diz:

“Na América, a ideia de raça foi uma maneira de outorgar legitimidade às relações de dominação impostas pela conquista. A posterior constituição da Europa como nova identidade depois da América e a expansão do colonialismo europeu ao resto do mundo conduziram à elaboração da perspectiva eurocêntrica do conhecimento e com ela à elaboração teórica da ideia de raça como naturalização dessas relações coloniais de dominação entre europeus e não-europeus. Historicamente, isso significou uma nova maneira de legitimar as já antigas ideias e práticas de relações de superioridade/inferioridade entre dominantes e dominados. Desde então demonstrou ser o mais eficaz e durável instrumento de dominação social universal, pois dele passou a depender outro igualmente universal, no entanto mais antigo, o intersexual ou de gênero: os povos conquistados e dominados foram postos numa situação natural de inferioridade, e conseqüentemente também seus traços fenotípicos, bem como suas descobertas mentais e culturais. Desse modo, raça converteu-se no primeiro critério fundamental para a distribuição da população mundial nos níveis, lugares e papéis na estrutura de poder da nova sociedade. Em outras palavras, no modo básico de classificação social universal da população mundial.”

Trezentos anos depois da chegada dos europeus na América, um outro evento de grande magnitude social balança as estruturas políticas europeia. A eclosão da Revolução Francesa vai derrubar as amarras do Antigo Regime. E tendo como lema "liberté, égalité, fraternité" (liberdade, igualdade, fraternidade) a ser difundido pelo mundo, tinha-se criado um problema para a sociedade europeia, pois a “igualdade” colocaria em equidade (na teoria) as “raças inferiores” (negros, índios e mestiços). Não por acaso, nesse período e ao longo de todo século XIX, vão surgir teorias para tentar comprovar a inferioridade biológico-social das “raças inferiores”.


No início do século XIX o tecido social da América Latina está em crescente ebulição, ocorrendo as independências das colônias americanas e o crescente poderio dos Estados Unidos. Nesse tabuleiro político, as nações europeias já não tinham grande vantagem de exploração colonial da América e se voltam para o continente africano até então desconhecido em sua quase totalidade.

Dois vetores de exploração (um associado ao outro) foram importantes na dominação da África por parte das potencias europeias; o capitalismo e a Geografia colonial. A Revolução Industrial transformou as formas de produção vigente até então, e, como reflexo, as relações capitalistas foram cambiadas e surgiram necessidades cada vez maiores de matéria prima e mão de obra. Cabe ressaltar, que os europeus já haviam cartografado a África desde 1497 com a viagem de Vasco da Gama para as Índias, porém, só haviam bordeado o continente e o interior ainda era uma incógnita. O “atraso” da exploração da África como um todo está associado as dificuldades que o meio ambiente africano, extremamente hostil, ofereceu aos colonizadores. Dificuldades de acesso a água, geomorfologia acidentada, rios com navegação difícil, clima agressivo, desertos,  esses fatores só puderam ser transpostos com avanços na técnica de exploração.

A relação entre a geografia europeia e o colonialismo do século XIX é siamesa. Trata-se de gerar um levantamento exaustivo dos lugares do mundo extra-europeu, identificando riquezas potenciais (recursos naturais), caminhos e obstáculos à penetração capitalista nestes distantes rincões. Esse trabalho, coube aos exploradores (financiados pelas Sociedade Geográficas, que recebiam subsídios dos Estados Nacionais ou empresas privadas) que desbravaram locais até então desconhecidos (como as nascentes do Nilo) e trouxeram à tona sociedades não estruturadas na lógica capitalista de sociedade. Na inserção desses novos territórios ao controle da metrópole articulou-se uma dialética entre a construção material e a construção simbólica do espaço, que unifica num mesmo movimento processos econômicos, políticos e culturais. O território material é referência para formas de consciência e representação, cujos discursos retroagem no processo de produção material do espaço, com o imaginário territorial comandando a apropriação e exploração dos lugares.

“Como próspero, o colonizador europeu sabia da importância da cultura e temia a ameaça que provém de homens conscientes da própria história e plenos de confiança no valor das próprias tradições. Do contrário, por que teria mobilizado tudo – potência militar, fé religiosa, força intelectual – para negar aos africanos seus próprios deuses, sua cultura, o significado de sua civilização?”   (James Ngugi. A África que progride precisa de seu passado)


O aparelho colonial europeu resultou mais tarde no Tratado de Berlim, repartição impositiva da África por parte das potências europeias, ato político que deixou marcas coloniais/raciais nos africanos até os dias atuais. Além do que, a partilha africana adiou a guerra mundial por trinta anos. Na primeira metade do século XX, vimos eclodir as duas guerras mundiais e o início do processo de descolonização da África, processos que tiveram reflexos a partir da segunda metade do século vinte onde, para os Africanos, a Geografia Colonial (política) começava a ser derrubada (o que não significou o fim das dependências dos Estados africanos) e surgia aquele que seria o embrião de uma nova identidade europeia, agora conformada em forma de bloco econômico, ainda que em caráter insipiente, mas, chegando ao que é hoje a União Europeia e sua ambição de unidade em várias diretrizes.

O que o samba pode te ensinar



Por Stephanie Ribeiro

(Um texto para o meu avô, que aos domingos 
colocava um álbum do Martinho da Vila 
e me tirava pra dançar)

Não pense que a denúncia da desigualdade surgiu com o rap. Vasto repertório de canções expressa, há décadas, re-existência e criatividade dos negros, num país que os queria apenas como braços


Como já disse Nina Simone, é dever do artista mostrar os tempos em que vivemos. Com os cantores de samba não foi diferente. Ao contrário do que muitos imaginam, não foi só quando surgiu o rap que o negro passou a fazer críticas e denúncias ao contexto social que estamos inseridos.
São canções feitas há anos, nas décadas de 1950 a 80, que se hoje fossem escutadas por nós ainda fariam sentido e seriam facilmente identificadas com nossas atuais vivências. A origem do samba por si só explica o porquê esse ritmo negro fala tanto sobre nós:
“Uma das formas mais comuns pelas quais os negros reafirmavam seus laços de amizade e cooperação ocorria durante as festas nas casas das “tias” ou das “vovós”. As casas das “tias” e das “vovós” eram grandes pontos de encontro daquelas comunidades. Durante essas festas, ocorria a celebração de rituais religiosos, o oferecimento de variados pratos de comida e a execução de diferentes manifestações musicais. Usualmente, aqueles que frequentavam essas festam diziam que frequentavam o “samba” na casa da vovó (ou da titia). Dessa maneira, antes de surgir a música “samba” o termo era sinônimo de festa. Outros pesquisadores do assunto ainda relatam que o termo “samba” tem origem no termo africano “semba”, que era comumente utilizado para designar um tipo de dança onde os dançarinos aproximam seus ventres fazendo uma “umbigada”. Segundo o dicionário Aurélio o termo originário ainda significa “estar animado” ou “pular de alegria”.
Não precisamos sequer de um explicação tão grande, basta escutar as canções de Martinho da Vila “Batuque na Cozinha” ou “Segure Tudo” e identificar a batida de terreiro, que já entenderíamos de onde vem o samba. É uma música feita sobre nós negros numa época em que essa era uma forma de explicitar a vida cotidiana do preto pobre brasileiro, os marginalizados que viviam nas periferias formadas no pós-abolição. E como muita coisa não mudou, ainda hoje temos nossa realidade refletida em algumas canções.
Por exemplo, hoje muito se fala de apropriação cultural, mas o sambista Geraldo Filme na canção “Vai Cuidar da Sua Vida” já cantou:
“Crioulo cantando samba/ Era coisa feia / Esse é negro é vagabundo / Joga ele na cadeia / Hoje o branco tá no samba / Quero ver como é que fica / Todo mundo bate palmas / Quando ele toca cuíca.”

O mesmo sambista na canção “Garoto de Pobre” esmiuçou sobre a realidade do pobre brasileiro:
“Garoto de pobre / só pode estudar / em escola de samba / Ou ficar pelas ruas / jogado ao léu (…) Ele desce dos morros / ele vem das vilas / e chega a cidade / alegra os turistas / recebe os aplausos da sociedade”
Em tempos onde ficamos compartilhando em redes sociais fotos de crianças negras trabalhando nas ruas, com textos bonitos, precisamos escutar mais o que Geraldo Filme cantou.  E assim começar a questionar essa realidade na qual estamos inseridos para não acreditarmos que tais atos e “textos bonitos” são empatia.
Bezerra da Silva já mostrou como as pessoas quando não romantizam a pobreza, criminalizam-na, como na música “Vítimas da Sociedade”:
“Se vocês estão a fim de prender o ladrão / Podem voltar pelo mesmo caminho / O ladrão está escondido lá embaixo / Atrás da gravata e do colarinho (…) / Só porque moro no morro / A minha miséria a vocês despertou / A verdade é que vivo com fome / Nunca roubei ninguém, sou um trabalhador / Se há um assalto à banco / Como não podem prender o poderoso chefão / Aí os jornais vêm logo dizendo que aqui no morro só mora ladrão.”
Ele ainda conclui:
“Somos vítimas de uma sociedade / Famigerada e cheia de malícias / No morro ninguém tem milhões de dólares / Depositados nos bancos da Suíça.”
As letras denunciam situações até sobre a forma como o samba foi apropriado e seus cantores embranquecidos para que o gênero fosse aceito:
Samba / Negro, forte, destemido / Foi duramente perseguido / Na esquina, no botequim, no terreiro / Samba /Inocente, pé-no-chão / A fidalguia do salão / Te abraçou, te envolveu / Mudaram toda a sua estrutura / Te impuseram outra cultura / E você nem percebeu.”
A música acima “Agoniza Mas não Morre” de Nelson Sargento, facilmente explica o que aconteceu com o Blues, Rock e vem acontecendo com o Funk e até mesmo com o Rap.
É obvio que além de denunciar, os sambas também tomam como partido o enaltecimento da cultura negra. Uma das músicas que mais me emociona é “Orgulho Negro” da Jovelina Pérola Negra:
“Negro é raiz / Negro é raiz / Me orgulho por isso / me sinto feliz / Negro é raiz / Negro é raiz /Negro é raiz / Na senzala, o negro não tinha sossego / Ao ver a chibata / Tremia de medo / Fazia de tudo para não apanhar / Só sentia em seu rosto suor escorria / trabalhando embaixo do sol de meio-dia / Se sacrificando para se libertar / Recordando / O homem no tronco apanhando / os olhos dos outros só lacrimejando / pedindo clemência para ele descansar / É ou não é raiz?”
E nossa maravilhosa Dona Ivone Lara já cantou que o negro é a raiz da Liberdade, em “Sorriso Negro”:
“Um sorriso negro, um abraço negro / Traz….felicidade / Negro sem emprego, fica sem sossego / Negro é a raiz da liberdade/ (…) Negro que já foi escravo / Negro é a voz da verdade / Negro é destino é amor / Negro também é saudade.. (um sorriso negro!)”

Muitas pessoas falam de letras que são machistas e eu reconheço que tem sim sambas que reproduzem ideias que inferiorizam as mulheres, assim como em todos os gêneros musicais. Mas duvido que alguém encontre uma música na década de 50 como a de Cartola “Vou Contar Tintim por Tintim”:
“Eu fui tão maltratada / Foi tanta pancada / Que ele me deu / Que estou toda doída / Estou toda ferida / Ninguém me socorreu / Ninguém lá em casa apareceu / Mas eu vou ao distrito / Está mais do que visto / Isto não fica assim / Vou contar tintim por tintim / Tudo nele eu aturo / Menos tapas e murros / Isto não é para mim”
As sambistas mulheres negras também eram não só questionadoras como atemporais nas questões que envolvem o universo feminino. Chiquinha Gonzaga em “Dois Corações” já dizia:
“Dei o meu a aquele ingrato / Que não soube me amar / Conheci duas meninas / Todas as duas eu quero muito bem / Uma mais do que a outra / Uma mais do que a outra / E a outra mais do que ninguém”
E tem até trechos empoderadores como na canção “Luz do Repente” da já supracitada Jovelina Pérola Negra:
“Eu sou partideira da pele mais negra / Que venho, que chego para improvisar / Já vi partideiro que nunca vacila / Entrando na fila, querendo versar / Mas dou um aviso que meu improviso / É sério, é ciso, não é de brincar / Otário com aço, eu mando pro espaço / Versando, eu faço o bicho pegar”

Vamos entender que se fala na origem do samba atrelada a uma mulher, a tão citada por alguns sambistas: Tia Ciata. Ela seria a dona do quintal “Berço do Samba”, mas também segundo alguns, era uma das que cantavam sambas anteriormente à década de 50, por isso não coloquei nesse texto nada que fixe a origem do samba exatamente. Acredito que ele tem origens negras, portanto, me dói quando vejo pessoas dando a Noel Rosa um título de grande nome desse gênero musical num país onde Geraldo Filme já disse: “Sambista de rua morre sem glória”
Por fim:
“Eu sou o samba / A voz do morro sou eu mesmo sim senhor /Quero mostrar ao mundo que tenho valor / Eu sou o rei do terreiro / Eu sou o samba / Sou natural daqui do Rio de Janeiro / Sou eu quem levo a alegria / Para milhões de corações brasileiros / Salve o samba, queremos samba / Quem está pedindo é a voz do povo de um país / Salve o samba, queremos samba / Essa melodia de um Brasil feliz”
Sim Zé Kéti, a “Voz do Morro” é o samba.
Eu cresci escutando sambas como os então citados, principalmente Martinho que era um dos grandes ídolos do meu avô Daniel. Foi “Canta Canta Minha Gente” que me inspirou para esse texto. E hoje eu percebo a importância de ter tido uma figura como ele na minha vida, que me tirava para dançar, que me fazia rir quando dançava miudinho, que me ensinou que nem todos os homens vão me tratar mal, enquanto meu pai se esquecia da minha existência… Meu avô foi também a minha referência negra dentro de casa. E hoje eu lamento muito não poder mostrar para ele a mulher, que ele também educou.
Nós negros crescemos acreditando num passado perdido e triste quando na verdade muitos lutaram por nós. Essas letras mostram uma intelectualidade ritmada, um pensar nosso. Para mim hoje é fácil saber que eu vou ser arquiteta, porque meu avô pintava paredes, porque minha bisavô lavava roupa para fora, porque alguém sobreviveu mesmo quando nós negros éramos tratados como escravos. Eu acho que temos que entender o passado para viver o presente e conquistar um futuro. Por isso busquei inspiração nas letras de samba, que são heranças que negros nos deixaram e precisamos usá-las…
Para o meu avô eu cantaria Cartola: “Você também me lembra a alvorada / Quando chega iluminando / Meus caminhos tão sem vida…”
E ele me responderia:
“Canta Canta, minha Gente / Deixa a tristeza pra lá / Canta forte, canta alto / Que a vida vai melhorar (…) Cantem o samba de roda / O samba-canção e o samba rasgado / Cantem o samba de breque, / O samba moderno e o samba quadrado.”
Stephanie Ribeiro é estudante de Arquitetura e Urbanismo na PUC de Campinas. Ativista feminista negra, já teve textos seus postados no site da revista Marie Claire, Blogueiras Negras, Géledes, Confeitaria, Modefica, Imprensa Feminista, Capitolina, entre outros. Em 2015, recebeu da Assembleia Legislativa de São Paulo a Medalha Theodosina Ribeiro, que homenageou seu ativismo em prol das mulheres negras.
É também uma das fundadoras do projeto Afronta – http://www.afronta.org/.
Texto original: Outras Palavras

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O Fim das Descobertas Imperiais

Boaventura de Sousa Santos*

As Descobertas dos Lugares

Apesar de ser verdade que não há descoberta sem descobridores e descobertos, o que há de mais intrigante na descoberta é que em abstracto não é possível saber quem é quem.  Ou seja, o acto da descoberta é necessariamente recíproco: quem descobre é também descoberto, e vice-versa[1].  Porque é então tão fácil, em concreto, saber quem é descobridor e quem é descoberto?  Porque sendo a descoberta uma relação de poder e de saber, é descobridor quem tem mais poder e mais saber e, com isso, a capacidade para declarar o outro como descoberto.  É a desigualdade de poder e de saber que transforma a reciprocidade da descoberta na apropriação do descoberto.  Toda a descoberta tem, assim, algo de imperial, uma acção de controlo e de submissão.  Este milénio, mais do que qualquer dos que o precedeu, foi o milénio das descoberta imperiais.  Foram muitos os descobridores, mas o mais importante foi, sem dúvida, o Ocidente, nas suas múltiplas incarnações.  O Outro do Ocidente, o descoberto, assumiu três formas principais: o Oriente, o selvagem e a natureza. 
Antes de nos referirmos a cada uma das descobertas imperiais e às suas vicissitudes até ao presente, é importante ter em mente as características principais da descoberta imperial.  A descoberta imperial é constituída por duas dimensões: uma, empírica, o acto de descobrir, e outra, conceptual, a ideia do que se descobre.  Ao contrário do que pode parecer, a dimensão conceptual precede a empírica: a ideia que se tem do que se descobre comanda o acto da descoberta e o que se lhe segue.  O que há de específico na dimensão conceptual da descoberta imperial é a ideia da inferioridade do outro.  A descoberta não se limita a assentar nessa inferioridade, legitima-a  e aprofunda-a.  O que é descoberto está longe, abaixo e nas margens, e essa "localização" é a chave para justificar as relações entre o descobridor e o descoberto após a descoberta. 
A produção da inferioridade é, assim, crucial para sustentar a descoberta imperial.  Para isso, é necessário recorrer a múltiplas estratégias de inferiorização.  Neste domínio pode dizer-se que não tem faltado imaginação ao Ocidente.  Entre tais estratégias podemos mencionar a guerra, a escravatura, o genocídio, o racismo, a desqualificação, a transformação do outro em objecto ou recurso natural e uma vasta sucessão de mecanismos de imposição económica (tributação, colonialismo, neocolonialismo, e, por último, globalização neoliberal), de imposição política (cruzadas, império, estado colonial, ditadura e, por último, democracia) e de imposição cultural (epistemicídio, missionação, assimilacionismo e, por último, indústrias culturais e cultura de massas).

O Oriente

Do ponto de vista do Ocidente, o Oriente é a descoberta primordial do segundo milénio.  O Ocidente não existe fora do contraste com o não-Ocidente.  O Oriente é o primeiro espelho da diferença neste milénio.  É o lugar cuja descoberta descobre o lugar do Ocidente: o centro da história que começa a ser entendida como universal.  É uma descoberta imperial que em tempos diferentes assume conteúdos diferentes.  O Oriente é, antes de mais, a civilização alternativa ao Ocidente — tal como o sol nasce a Oriente, também aí nasceram as civilizações e os impérios.  Esse mito das origens tem tantas leituras quantas as que o Ocidente tem de si próprio, ainda que estas, por seu lado, também não existam senão em termos da comparação com o que não é Ocidental.  Um Ocidente decadente vê no Oriente a Idade do Ouro; um Ocidente exaltante vê no Oriente a infância do progresso civilizacional. 
As duas leituras estão vigentes no milénio mas, à medida que este avança, a segunda leitura toma a primazia sobre a primeira e assume a sua formulação mais extrema em Hegel para quem "a história universal vai de Oriente para Ocidente".  A Ásia é o princípio, enquanto a Europa é o fim absoluto da história universal, o lugar da consumação da trajectória civilizacional da humanidade.  A ideia bíblica e medieval da sucessão dos impérios (translatio imperii) transforma-se em Hegel no caminho triunfante da Ideia Universal dos povos asiáticos para a Grécia, desta para Roma e finalmente de Roma para a Alemanha.  A América do Norte é o futuro equívoco que não colide com o culminar da história universal na Europa, na medida em que é feito com a população excedentária da Europa.  Assim, este eixo Oriente-Ocidente contém, simultaneamente, uma sucessão e uma rivalidade civilizacional e, por isso, é muito mais conflitual do que o eixo Norte-Sul.  Este último é constituído  pela relação entre a civilização e o seu oposto, a natureza e o selvagem.  Aqui não há verdadeiramente conflito porque a civilização tem uma primazia natural sobre tudo o que não é civilizado.  Segundo Hegel, a África não faz parte sequer da história universal.  Para o Ocidente, o Oriente é sempre uma ameaça, enquanto o Sul é apenas um recurso.  A superioridade do Ocidente reside em ele ser simultaneamente o Ocidente e o Norte.
As mudanças, ao longo do milênio, na construção simbólica do Oriente têm alguma correspondência nas transformações da economia mundial.  Até ao século XV, podemos dizer que a Europa e, portanto, o Ocidente, é a periferia de um sistema-mundo cujo centro está localizado na Ásia Central e na Índia.  Só a partir de meados do milénio, com os descobrimentos, é que esse sistema-mundo é substituído por outro, capitalista e planetário, cujo centro é a Europa.
Logo no início do milénio as cruzadas são a primeira grande confirmação do Oriente como ameaça.  A conquista de Jerusalém pelos Turcos e a crescente vulnerabilidade dos cristãos de Constantinopla ao avanço do Islão foram os motivos da guerra santa.  Insuflada pelo Papa Urbano II, uma onda de zelo religioso avassalou a Europa reivindicando para os cristãos o direito inalienável à terra prometida.  As peregrinações à terra santa e ao santo sepúlcro. que nessa altura mobilizavam multidões — trinta anos antes da primeira cruzada, alguns bispos organizaram uma peregrinação de sete mil pessoas, uma jornada laboriosa do Reno ao Jordão[2] — foram o prelúdio da guerra contra o infiel.  Uma guerra santa que recrutou os seus soldados com a concessão papal, a todos os que se alistassem sob a bandeira da cruz, de uma indulgência plena (absolvição de todos os pecados e quitação das penitências devidas) e também com a miragem dos paraísos orientais, os seus tesouros e minas de ouro e diamantes, palácios de mármore e quartzo e rios de leite e mel.  Como qualquer outra guerra santa, também esta soube multiplicar os inimigos da fé para exercitar o seu vigor e, por isso, muito antes de Jerusalém, em plena Alemanha, a cruzada satisfez pela primeira vez a sua sede de sangue e de pilhagem contra os judeus.
As sucessivas cruzadas e as suas vicissitudes selaram a concepção do Oriente que dominou durante todo o milénio: o Oriente como civilização temível e temida e como recurso a ser explorado pela guerra e pelo comércio. Foi essa concepção que presidiu às descobertas planeadas na Escola de Sagres.  Mas os portugueses não deixaram de retocar essa concepção.  Talvez devido à sua posição periférica no Ocidente, viram o Oriente com menos rigidez: a civilização temida mas também a civilização admirada.    O exercício da rejeição violenta foi de par com a admiração veneranda, e os interesses do comércio acabaram por ditar o predomínio de uma ou outra. Aliás, a descoberta do caminho marítimo para a Índia é a mais "ocidental" de todas as descobertas, uma vez que as costas da África Oriental e o Oceano Índico estavam há muito descobertas pelas frotas árabes e indianas.
A concepção do Oriente que predominou no milénio ocidental teve a sua consagração científica no século XIX com o chamado Orientalismo.  Orientalismo é a concepção do Oriente que domina nas ciências e as humanidades europeias a partir do final do século XVIII.  Segundo Said[3], essa concepção assenta nos seguintes dogmas: uma distinção total entre "nós", os ocidentais, e "eles", os orientais; o Ocidente é racional, desenvolvido, humano, superior, enquanto o Oriente é aberrante, subdesenvolvido e inferior; o Ocidente é dinâmico, diverso, capaz de auto-transformação e de auto-definição, enquanto o Oriente é estático, eterno, uniforme, incapaz de se auto-representar; o Oriente é temível (seja ele o perigo amarelo, as hordas mongóis ou os fundamentalistas islâmicos) e tem de ser controlado pelo Ocidente (por meio da guerra, ocupação, pacificação, investigação científica, ajuda ao desenvolvimento, etc.).
O outro lado do orientalismo foi a ideia da superioridade intrínseca do Ocidente, a conjunção nesta zona do mundo de uma série de características peculiares que tornaram possível, aqui e só aqui, um desenvolvimento científico, cultural, económico e político sem precedentes.  Max Weber foi um dos grandes teorizadores do predomínio inevitável do Ocidente[4].  O facto de Joseph Needham e outros terem demonstrado que, até ao século XV, a civilização chinesa não era em nada inferior à civilização ocidental[5], não abalou até hoje o senso comum ocidental sobre a superioridade, por assim dizer, genética do Ocidente.
Chegamos ao final do milénio prisioneiros da mesma concepção do Oriente.  Aliás, deve salientar-se que as concepções que assentam em contrastes dicotómicos têm sempre uma forte componente especular: cada um dos termos da distinção vê-se ao espelho do outro.  Se é verdade que as cruzadas selaram a concepção do Oriente que prevaleceu até hoje no Ocidente, não é menos verdade que, para o mundo muçulmano, as cruzadas — agora designadas como guerras e invasões francas — compuseram a imagem do Ocidente — um mundo bárbaro, arrogante, intolerante, pouco honrado nos compromissos — que igualmente até hoje dominou[6].
As referências empíricas da concepção do Oriente por parte do Ocidente mudaram ao longo do milénio, mas a estrutura que lhes dá sentido manteve-se intacta.  Numa economia globalizada, o Oriente, enquanto recurso, foi profundamente reelaborado.  É hoje, sobretudo, um imenso mercado a explorar, e a China é o corpo material e simbólico desse Oriente.  Por mais algum tempo, o Oriente será ainda um recurso petrolífero, e a Guerra do Golfo é a expressão do valor que ele detém na estratégia do Ocidente hegemónico.  Mas, acima de tudo, o Oriente continua a ser uma civilização temível e temida.  Sob duas formas principais, uma, de matriz política — o chamado "despotismo oriental" — e outra, de matriz religiosa — o chamado "fundamentalismo islâmico" —, o Oriente continua a ser o Outro civilizacional do Ocidente, uma ameaça permanente contra a qual se exige uma vigilância incansável.  O Oriente continua a ser um lugar perigoso cuja perigosidade cresce com a sua geometria. 
A mão que traça as linhas do perigo é a mão do medo e, por isso, o tamanho da fortaleza que o exorcisa varia com a percepção da vulnerabilidade.  Quanto maior for a percepção da vulnerabilidade do Ocidente, maior é o tamanho do Oriente.  Daí que os defensores da alta vulnerabilidade não se contentem com uma concepção restrita de Oriente, tipo "fundamentalismo islâmico", e apontem para uma concepção muito mais ampla, a "aliança confucionista-islâmica" de que fala Samuel Huntington[7]. Trata-se, afinal, da luta do Ocidente contra o Resto do Mundo.  Ao contrário do que pode parecer, a percepção da alta vulnerabilidade, longe de ser uma manifestação de fraqueza, é uma manifestação de força e traduz-se na potenciação da agressividade.  Só quem é forte pode justificar com a vulnerabilidade o exercício da força. 
Um Ocidente sitiado, altamente vulnerável, não se limita a ampliar o tamanho do Oriente, restringe o seu próprio tamanho.  Esta restrição tem um efeito perverso: a criação de Orientes dentro do Ocidente.  É este o significado da Guerra do Kosovo: O Ocidente eslavo transformado numa forma de despotismo oriental.  É por isso que os Kosovares, para estarem do lado "certo" da história, não podem ser islâmicos.  Têm de ser apenas minorias étnicas.

O Selvagem

Se o Oriente é para o Ocidente o lugar da alteridade, o selvagem é o lugar da inferioridade.  O selvagem é a diferença incapaz de se constituir em alteridade.  Não é o outro porque não é sequer plenamente humano[8].  A sua diferença é a medida da sua inferioridade.  Por isso, longe de constituir uma ameaça civilizacional, é tão só a ameaça do irracional. O seu valor é o valor da sua utilidade.  Só merece a pena confrontá-lo na medida em que ele é um recurso ou a via de acesso a um recurso.  A incondicionalidade dos fins — a acumulação dos metais preciosos, a expansão da fé — justificam o total pragmatismo dos meios: escravatura, genocídio, apropriação, conversão, assimilação.
Os jesuítas, despachados quase ao mesmo tempo, ao serviço de D. João III, para o Japão e para o Brasil, foram os primeiros a testemunhar a diferença entre o Oriente e o selvagem:  "Entre o Brasil e esse vasto Oriente, a disparidade era imensa.  Lá, povos de requintada civilização ... Aqui florestas virgens e selvagens nus.  Para o aproveitamento da terra pouco se poderia contar com sua rarefeita população indígena cuja cultura não ultrapassava a idade da pedra.  Era necessário povoá-la, estabelecer na terra inculta a verdadeira "colonização".  Não assim no Oriente, superpovoado, onde a Índia, o Japão e, sobretudo, a China haviam deslumbrado, em plena idade média, os olhos e a imaginação de Marco Polo[9].
A ideia do selvagem passou por várias metamorfoses ao longo do milénio.  O seu antecedente conceptual está na teoria da "escravatura natural" de Aristóteles.  Segundo esta teoria, a natureza criou duas partes, uma superior, destinada a mandar, e outra, inferior, destinada a obedecer.  Assim, é natural que o homem livre mande no escravo, o marido, na mulher, o pai, no filho.  Em qualquer destes casos quem obedecer está total ou parcialmente privado da razão e da vontade e, por isso, é do seu interesse ser tutelado por quem tem uma e outra em pleno.  No caso do selvagem, esta dualidade atinge uma expressão extrema na medida em que o selvagem não é sequer plenamente humano; meio animal, meio homem, monstro, demónio, etc.  Esta matriz conceptual variou ao longo do milénio e, tal como sucedeu com o Oriente, foi a economia política e simbólica da definição do "Nós" que determinou a definição do "Eles".  Se é verdade que dominaram as visões negativas do selvagem, não é menos verdade que as concepções pessimistas do "Nós", de Montaigne a Rousseau, de Las Casas a Vieira estiveram na base das visões positivas do selvagem, o "bom selvagem".
Neste segundo milénio a América e a África, enquanto "descobertas" ocidentais, são o lugar por excelência do selvagem.  E a América talvez mais que a África, dado o modelo de conquista e colonização  que prevaleceu no "Novo Mundo", como significativamente foi designado por Américo Vespúcio o continente que rompia com a geografia do mundo antigo, confinado à Europa, à Ásia e à África.  É a propósito da América e dos povos indígenas submetidos ao jugo europeu que se suscita o debate fundador sobre a concepção do selvagem no segundo milénio.  Este debate que, contrariamente às aparências, está hoje tão em aberto como há quatrocentos anos, inicia-se com as descobertas de Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral e atinge o seu primeiro clímax na "Disputa de Valladolid", convocada em 1550 por Carlos V, em que se confrontaram dois discursos paradigmáticos sobre os povos indígenas e a sua dominação, protagonizados por Juan Ginés de Sepúlveda e Bartolomé de Las Casas.  Para Sepúlveda, fundado em Aristóteles, é justa a guerra contra os índios porque estes são os "escravos naturais", seres inferiores, animalescos, homúnculos, pecadores graves e inveterados, que devem ser integrados na comunidade cristã, pela força, se for caso disso, a qual, se necessário, pode levar à sua eliminação.  Ditado por uma moral superior, o amor do próximo pode, assim, sem qualquer contradição, justificar a destruição dos povos indígenas:  na medida em que resistem à dominação "natural e justa" dos seres superiores, os índios tornam-se culpados da sua própria destruição.  É para seu próprio benefício que são integrados ou destruídos[10].
A este paradigma da descoberta imperial, fundado na violência civilizadora do Ocidente, contrapôs Las Casas a sua luta pela libertação e emancipação dos povos indígenas, que considerava seres racionais e livres, dotados de cultura e instituições próprias, com os quais a única relação legítima era a do diálogo construtivo assente em razões persuasivas "suavemente atractivas e exortativas da vontade"[11].  Fustigando a hipocrisia dos conquistadores, como mais tarde fará o Padre António Vieira, Las Casas denuncia a declaração da inferioridade dos índios como um artifício para compatibilizar a mais brutal exploração com o imaculado cumprimento dos ditames da fé e dos bons costumes.
Pese embora o brilho de Las Casas, foi o paradigma de Sepúlveda que prevaleceu, porque só esse era compatível com as necessidades do novo sistema mundial capitalista centrado na Europa.
  No terreno concreto da missionação, dominaram quase sempre as ambiguidades e os compromissos entre os dois paradigmas.  O Padre José Anchieta é talvez um dos primeiros exemplos.  Tendo, embora, repugnância pela antropofagia e pela concupiscência dos brasis, "gente bestial e carniceira", o Padre Anchieta acha legítimo sujeitar os gentios ao jugo de Cristo que "assim [...] serão obrigados a fazer, por força, aquilo a que não é possível levá-los por amor"[12], ao mesmo tempo que de Roma os seus superiores lhe recomendam que evite atritos com os portugueses, "pelo que importa mantê-los benévolos"[13].  Mas, por outro lado, tal como Las Casas, Anchieta embrenha-se no conhecimento dos costumes e das línguas indígenas e vê nos ataques dos índios aos portugueses o castigo divino "pelas muitas sem-razões que têm feito a esta nação, que dantes eram nossos amigos, salteando-os, cativando-os, e matando-os, muitas vezes com muitas mentiras e enganos"[14].  Quase vinte anos depois, haveria Anchieta de se lamentar que "a maior parte dos índios, naturais do Brasil, está consumida, e alguns poucos, que se hão conservado com a diligência e trabalhos da Companhia, são tão oprimidos que em pouco tempo se gastarão"[15].
Com matizes vários, é o paradigma de Sepúlveda que ainda hoje prevalece na posição ocidental sobre os povos ameríndios e os povos africanos.  Expulsa das declarações universais e dos discursos oficiais é, contudo, a posição que domina as conversas privadas dos agentes do Ocidente no Terceiro Mundo, sejam eles embaixadores, funcionários da ONU, do Banco Mundial ou do Fundo Monetário Internacional, cooperantes, empresários, etc. É esse discurso privado sobre pretos e índios que mobiliza subterraneamente os projectos de desenvolvimento depois enfeitados publicamente com declarações de solidariedade e direitos humanos.

A Natureza

A natureza é a terceira grande descoberta do milénio, aliás, concomitante da descoberta do selvagem ameríndio.  Se o selvagem é, por excelência, o lugar da inferioridade, a natureza é, por excelência, o lugar da exterioridade. Mas como o que é exterior não pertence e o que não pertence não é reconhecido como igual, o lugar de exterioridade é também um lugar de inferioridade.  Tal como o selvagem, a natureza é simultaneamente uma ameaça e um recurso.  É uma ameaça tão irracional quanto a do selvagem, mas a irracionalidade deriva, no caso da natureza, da falta de conhecimento sobre ela, um conhecimento que permita dominá-la e usá-la plenamente como recurso. A violência civilizatória que, no caso dos selvagens, se exerce por via da destruição dos conhecimentos nativos tradicionais e pela inculcação do conhecimento e fé "verdadeiros" exerce-se, no caso da natureza, pela produção de um conhecimento que permita transformá-la em recurso natural.  Em ambos os casos, porém, as estratégias de conhecimento são basicamente estratégias de poder e dominação.  O selvagem e natureza são, de facto, as duas faces do mesmo desígnio: domesticar a "natureza selvagem", convertendo-a num recurso natural.  É essa vontade única de domesticar que torna a distinção entre recursos naturais e recursos humanos tão ambígua e frágil no século XVI como hoje.
Tal como a construção do selvagem, também a construção da natureza obedeceu às exigências da constituição do novo sistema económico mundial centrado na Europa.  No caso da natureza, essa construção foi sustentada por uma portentosa revolução científica que trouxe no seu bojo a ciência tal como hoje a conhecemos, a ciência moderna.  De Galileu a Newton, de Descartes a Bacon, um novo paradigma científico emerge que separa a natureza da cultura e da sociedade e submete a primeira a um guião determinístico de leis de base matemática.  O Deus que justifica a submissão dos índios tem, no caso da natureza, o seu equivalente funcional nas leis que fazem coincidir previsões com acontecimentos e transformam essa coincidência na prova da submissão da natureza.  Tão estúpida e imprevisível enquanto interlocutor quanto o selvagem, a natureza não pode ser compreendida; pode apenas ser explicada, e explicá-la é a tarefa da ciência moderna. Para ser convincente e eficaz, esta descoberta da natureza não pode questionar a natureza da descoberta.  Com o tempo, o que não pode ser questionado deixa de ser uma questão, isto é, torna-se evidente.
Este paradigma de construção da natureza, apesar de apresentar alguns sinais de crise, é ainda hoje o paradigma dominante.  Duas das suas consequências assumem uma especial preeminência no final do milénio: a crise ecológica e a questão da biodiversidade.  Transformada em recurso, a natureza não tem outra lógica senão a de ser explorada até à exaustão.  Separada a natureza do homem e da sociedade, não é possível pensar retroacções mútuas.  Esta ocultação não permite formular equilíbrios nem limites, e é por isso que a ecologia não se afirma senão por via da crise ecológica. 
Por outro lado, a questão da biodiversidade vem repor num novo plano a sobreposição matricial entre a descoberta do selvagem e a descoberta da natureza.  Não é por acaso que no final do milénio boa parte da biodiversidade do planeta existe em territórios dos povos indígenas.  Para eles, a natureza nunca foi um recurso natural, foi sempre parte da sua própria natureza enquanto povos indígenas e assim a preservaram preservando-se, sempre que conseguiram escapar à destruição ocidental.  Hoje, à semelhança do que ocorreu nos alvores do sistema mundial capitalista, as empresas multinacionais da farmacêutica, da biotecnologia e da engenharia genética procuram transformar os indígenas em recursos, agora não em recursos de trabalho, mas antes em recursos genéticos, em instrumentos de acesso, não ao ouro e à prata, mas, por via do conhecimento tradicional, à flora e à fauna, sobre a forma de biodiversidade.

Os Lugares fora do Lugar

Identifiquei as três grandes descobertas matriciais do milénio: o Oriente enquanto lugar da alteridade; o selvagem, enquanto lugar da inferioridade; a natureza, enquanto lugar de exterioridade.  São descobertas matriciais porque acompanharam todo o milénio, ou boa parte dele, e tanto que, no final do milénio, e apesar de alguns questionamentos, permanecem intactas na sua capacidade para alimentar o modo como o Ocidente se vê a si próprio e tudo o que não identifica consigo.
A descoberta imperial não reconhece igualdade, direitos ou dignidade ao que descobre.  O Oriente é inimigo, o selvagem é inferior, a natureza é um recurso à mercê dos humanos.  Como relação de poder, a descoberta imperial é uma relação desigual e conflitual.  É também uma relação dinâmica.  Por quanto tempo o lugar descoberto mantém o estatuto de descoberto?  Por quanto tempo o lugar descoberto permanece no lugar da descoberta?  Qual o impacto do descoberto no descobridor?  Pode o descoberto descobrir o descobridor? Pode o descobridor descobrir-se?  São possíveis redescobertas?
O final do milénio é um tempo propício às interrogações.  Na orla do tempo, a perplexidade parece ser a forma menos insana de conviver com a dramatização das opções ou da falta delas.  O sentimento de urgência é o resultado da acumulação de múltiplas questões na mesma hora ou lugar.  Sob o peso da urgência, as horas perdem minutos e os lugares comprimem-se.
É sob o efeito desta urgência e da desordem que ela provoca que os lugares descobertos pelo milénio ocidental dão sinais de inconformismo.  Na intimidade, esse inconformismo coincide em tudo com o auto-questionamento e a auto-reflexividade do Ocidente.  É possível substituir o Oriente pela convivência multicultural?  É possível substituir o selvagem pela igualdade na diferença e pela auto-determinação?  É possível substituir a natureza por uma humanidade que a inclua?  Estas são as perguntas a que o terceiro milénio tentará responder.

*Sociólogo. Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
Texto original em: dhnet


Leitura recomendada

Anchieta, Jose.  Obras Completas.  São Paulo: Edições Loyola.
Gibbon, Edward.  1928.  The Decline and Fall of the Roman Empire.  6 Volumes.  Londres: J.M. Dent.
Las Casas, Bartolomé.  1992.  Obras CompletasTomo X, Madrid: Alianza Editorial.
Montaigne, Michel de.  1998.  Ensaios. Lisboa: Relógio D'Água.
Needham, Joseph.  1954.  Science and Civilization in China.  6 Volumes.  Cambridge: Cambridge University Press.
Said, Edward.  1979.  Orientalism.  Nova Iorque: Vintage Books.



[1] Vitorino Magalhães Godinho, apesar de criticar os que questionam o conceito de descobrimento no contexto da expansão europeia, reconhece que descoberta em sentido pleno só existiu no caso da descoberta das ilhas desertas (Madeira, Açores, Ilhas de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Ascensão, Santa Helena, ilhas de Tristão da Cunha). Vitorino M. Godinho, "Que significa descobrir?" in Adauto Novaes (org.) A Descoberta do Homem e do Mundo, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 55-82.
[2]   Cfr. Edward Gibbon, The Decline and Fall of the Roman Empire, Vol. 6. Londres: J.M. Dent and Sons, p. 31.
 [3]  Cfr. Edward Said, Orientalism. Nova Iorque: Vintage Books, 1979, p. 300.
[4]  Cfr. Max Weber , A Ética Protestante e o espírito do Capitalismo. 3ª edição, Lisboa: Ed. Presença,1990.
[5] Cfr. Joseph Needham, Science and Civilization in China, 6 Volumes. Cambridge: Cambridge University Press, 1954.
[6]  Cfr. Amin Maalouf, As cruzadas vistas pelos Árabes. 7ª edição, Lisboa: Difel, 1983.
[7]  Cfr. Samuel Huntington, "The Clash of Civilizations?", Foreign Affairs, 72(1993), 3.
[8] Num dos relatos recolhidos por Ana Barradas (1992), os índios são descritos como “(…) verdadeiros seres inumanos, bestas da floresta incapazes de compreender a fé católica (…), esquálidos selvagens, ferozes e vis, parecendo-se mais animais selvagens em tudo menos na forma humana (…).” Ana Barradas, Ministros da Noite –  Livro Negro da Expansão Portuguesa. Lisboa: Antígona, 1992.
[9] Cfr. Helio A. Viotti, S. J. Prefácio às Cartas do P. José de Anchieta, Obras Completas, Vol. 6. São Paulo: Edições Loyola, 2ª edição, 1984, p. 12.
[10]  Cfr. Juan Ginés de Sepúlveda, Tratado sobre las Justas Causas de la Guerra contra los Índios México: Fordo de Cultura Economica, 1979.
[11]  Cfr. Bartolomé de Las Casas, Obras Completas, Tomo X. Madrid: Alianza Editorial, 1992.
[12]  Carta de 1.10.1554, Obras Completas, Vol. 6, p. 79.
[13]  Carta do Geral Everardo para o P. José Anchieta de 19.8.1579, Obras Completas, Vol. 6, p. 299.
[14]  Carta de 8.1.1565, Obras Completas, Vol. 6, p. 210.
[15]  Carta de 7.8.1583, Obras Completas, Vol. 6, p. 338.