domingo, 24 de abril de 2016

Para compreender o neoliberalismo além dos clichês



Friedrich Hayek preside, em 1947, a primeira reunião da Sociedade Monte Pèlerin, no resort suíço de mesmo nome. Lançadas em 1938, em Paris, as ideias de Hayek e Von Mises entusiasmaram desde cedo milionários e suas fundações -- principais financiadores do esforço de formulação do projeto neoliberal
Friedrich Hayek preside, em 1947, a primeira reunião da Sociedade Monte Pèlerin, no resort suíço de mesmo nome. Lançadas em 1938, em Paris, as ideias de Hayek e Von Mises entusiasmaram desde cedo milionários e suas fundações — principais financiadores do esforço de formulação do projeto neoliberal

Que é a ideologia hegemônica no Ocidente, há três décadas. Como surgiu, foi adotada pelas elites e tornou-se invisível e difusa. Quais seus paradoxos. Por que esquerda fracassou, até agora, em enfrentá-la
Por George Monbiot | Tradução: Inês Castilho
Imagine se a população da União Soviética nunca tivesse ouvido falar de comunismo. A ideologia que domina nossas vidas não tem nome, para a maioria das pessoas. Mencione-o numa conversa e você verá que seu interlocutor dá de ombros. Mesmo que tenha ouvido o termo antes, encontrará dificuldade para defini-lo. Neoliberalismo: você sabe o que é isso?
O anonimato é tanto sintoma quanto causa de seu poder. Desempenhou um papel importante numa notável sequência de crises: o derretimento financeiro de 2007-8; o ocultamento de riqueza e poder de que os Panama Papers nos oferecem apenas um vislumbre; a lenta derrocada da saúde e da educação públicas; o ressurgimento da pobreza infantil; a epidemia de solidão; o colapso dos ecossistemas; a ascensão de Donald Trump. Mas respondemos a essas crises como se elas emergissem isoladas, aparentemente inconscientes de que foram todas ou catalisadas ou exacerbadas pela mesma filosofia coerente; uma filosofia que tem – ou tinha – um nome. Pode haver maior poder do que operar anonimamente?
O neoliberalismo tornou-se tão penetrante que raramente o reconhecemos sequer como ideologia. Parecemos aceitar a proposição de que essa fé utópica e milenar descreve uma força neutra; uma espécie de lei biológica, como a teoria da evolução de Darwin. Mas essa filosofia surgiu como a tentativa consciente de remodelar a vida humana e mudar o locus do poder.
O neoliberalismo vê a competição como característica definidora das relações humanas. Ela redefine os cidadãos como consumidores, cujas escolhas democráticas são melhor exercidas ao comprar e vender – um processo que supostamente recompensa o mérito e pune a ineficiência. Sustenta que o “mercado” assegura benefícios que jamais poderiam ser conseguidos pelo planejamento.
Tentativas de limitar a competição são tratadas como hostis à liberdade. A ideologia afirma que impostos e regulação deveriam ser reduzidos; serviços públicos, privatizados. A organização do trabalho e a negociação coletiva pelos sindicatos são retratadas como distorções do mercado, que impedem a formação de uma hierarquia natural entre vencedores e perdedores. A desigualdade é requalificada como virtuosa: um prêmio para a utilidade, ela é geradora de uma riqueza que se espalha de cima para baixo, enriquecendo todo mundo. Os esforços para criar uma sociedade mais igualitária seriam ao mesmo tempo contraproducentes e moralmente corrosivos. O mercado asseguraria que todo mundo recebe o que merece.
Internalizamos e reproduzimos estas crenças. Os ricos se convencem de que adquiriram sua riqueza por mérito, ignorando as vantagens – tais como educação, herança e classe social – que podem ter ajudado a lhes garantir isso. Os pobres começam a se culpar por seus fracassos, mesmo quanto pouco podem fazer para mudar as circunstâncias de suas vidas.
Esqueça o desemprego estrutural: se você não tem trabalho é porque não é empreendedor. Esqueça os custos impossíveis da moradia: se seu cartão de crédito está no limite, você é imprudente e imprevidente. Esqueça que seus filhos não têm mais uma quadra de esportes na escola: se ficam gordos, é falha sua. Num mundo governado pela competição, aqueles que ficam para trás passam a ser definidos e a se auto-definir como fracassados.
Entre os resultados, como documenta Paul Verhaeghe no livro What About Me?, estão epidemia de automutilação, distúrbios alimentares, depressão, solidão, ansiedade por desempenho e fobia social. Não surpreende que o Reino Unido, onde a ideologia neoliberal vem sendo aplicada com maior rigor, seja a capital da solidão na Europa.
Agora somos todos neoliberais
O termo neoliberalismo foi cunhado numa reunião de 1938, em Paris. Entre os participantes, havia dois homens que definiriam a ideologia, Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Ambos exilados da Áustria, eles consideraram a social democracia, caracterizada pelo New Deal de Franklin Roosevelt e o desenvolvimento gradual do Estado de bem-estar social da Grã Bretanha, como manifestações de um coletivismo que ocupava o mesmo espectro do nazismo e do comunismo.
Milton Friedman, um dos ideólogos mais importantes do neoliberalismo, reúne-se com o ditador Augusto Pinochet, no Chile, nos anos 1970. Hayek, outro integrante destacado do movimento, diria, sobre o fato: "minha preferência pessoal inclina-se na direção de uma ditadura liberal, ao invés de um governo democrático que não pratique o liberalismo”
Milton Friedman, um dos ideólogos do neoliberalismo (ao centro), reúne-se com ditador Augusto Pinochet, no Chile, nos anos 70. Hayek, outro guru do movimento, diria: “minha preferência inclina-se na direção de uma ditadura liberal, ao invés de um governo democrático que não pratique o liberalismo”
Em The Road to Serfdom (O Caminho da Servidão), publicado em 1944, Hayek argumentava que o planejamento governamental, ao esmagar o individualismo, levaria inexoravelmente ao controle totalitário. Como o livro Bureaucracy, de Mises, The Road to Serfdomfoi amplamente lido. Chamou a atenção de algumas pessoas muito ricas, que viram na filosofia a oportunidade para libertar-se de impostos e regulação. Quando, em 1947, Hayek fundou a primeira organização que iria espalhar a doutrina do neoliberalismo – a Sociedade Monte Pelèrin –, ela foi sustentada financeiramente por milionários e suas fundações.
Com tal apoio, ele começou a criar o que Daniel Stedman Jones descreve, em Masters of the Universe, como “uma espécie de Internacional Neoliberal”: uma rede global de acadêmicos, homens de negócios, jornalistas e ativistas. Apoiadores ricos do movimento fundaram uma série de thinktanks que iriam refinar e promover a ideologia. Entre elas estão o American Enterprise Institute, a Heritage Foundation, o Cato Institute, o Institute of Economic Affairs, o Centre for Policy Studies e o Adam Smith Institute. Também financiaram departamentos acadêmicos, particularmente nas universidades de Chicago e Virginia.
Conforme evoluiu, o neoliberalismo tornou-se mais estridente. A visão de Hayek de que os governos deveriam regular a competição para prevenir a formação de monopólios deu lugar – entre apóstolos norte-americanos tais como Milton Friedman – à crença de que o poder monopolista poderia ser visto como uma recompensa à eficiência.
Uma outra coisa aconteceu durante essa transição: o movimento perdeu o seu nome. Em 1951, Friedman se satisfazia com a descrição de si mesmo como neoliberal. Mas, logo depois disso, o termo começou a desaparecer. Ainda desconhecido, mesmo à medida em que a ideologia tornava-se mais nítida e o movimento mais coerente, o nome perdido não foi substituído por nenhuma alternativa.
No início, apesar de seu generoso financiamento, o neoliberalismo manteve-se nas margens. O consenso pós-guerra era quase universal: as prescrições econômicas de John Maynard Keynes foram amplamente aplicadas. Pleno emprego e combate à fome eram metas comuns nos EUA e na maior parte da Europa Ocidental. As aliquotas máximas do imposto eram altas e os governos buscavam resultados sociais elevados sem constrangimento, desenvolvendo novos serviços públicos e redes de segurança.
Nos anos 1970, contudo, quando as políticas keynesianas começaram a desmoronar e as crises econômicas atingiram EUA e Europa, as ideias neoliberais começaram a entrar no mainstream. Como Friedman ressaltou, “quando chega a hora, é preciso mudar … havia ali uma alternativa pronta para ser agarrada”. Com a ajuda de jornalistas simpáticos à ideia e conselheiros políticos, alguns elementos do neoliberalismo, principalmente suas prescrições de política monetária, foram adotadas pelos governos de Jimmy Carter, nos EUA, e Jim Callaghan, na Grã Bretanha.
Depois que Margaret Thatcher e Ronald Reagan assumiram o poder, o resto do pacote veio a galope: cortes maciços nos impostos dos ricos, esmagamento dos sindicatos, desregulação, privatização, terceirização e competição nos serviços públicos. Por meio do FMI, do Banco Mundial, do Tratado de Maastricht e da Organização Mundial de Comércio, as políticas neoliberais foram impostas – frequentemente sem consenso democrático – em grande parte do mundo. O mais notável é que foram adotadas por partidos que no passado pertenceram à esquerda: Trabalhista, na Inglaterra, e Democrata, nos Estados Unidos, por exemplo. Como observa Stedman Jones, “é difícil pensar em outra utopia que tenha sido realizada tão completamente.”
Pode parecer estranho que uma doutrina que promete escolhas e liberdade possa ter sido promovida sob o slogan “não há alternativa”. Mas, como observou Hayek em uma visita ao Chile de Pinochet – uma das primeiras nações em que o programa foi exaustivamente aplicado – “minha preferência pessoal inclina-se na direção de uma ditadura liberal, ao invés de um governo democrático que não pratique o liberalismo”. A liberdade que o neoliberalismo oferece, que soa tão fascinante quando expressa em termos gerais, acaba por significar a liberdade para a elite, não para os peixes pequenos.
Liberdade em relação aos sindicatos e à negociação coletiva significa liberdade para reprimir salários. Liberdade em relação da regulamentação significa liberdade de envenenar rios, colocar em risco os trabalhadores, cobrar taxas iníquas de juros e criar instrumentos financeiros exóticos. Ficar livre de impostos significa ficar livre da distribuição de riqueza que tira as pessoas da pobreza.
Como Naomi Klein documenta em The Shock Doctrine (A Doutrina do Choque), teóricos neoliberais advogam o uso de crises para impor políticas impopulares enquanto as pessoas estavam distraídas: por exemplo, a consequência do golpe de Pinochet, da guerra do Iraque e do Furacão Katrina, que Frieman descreveu como “uma oportunidade para reformar radicalmente o sistema educacional” em New Orleans.
Onde as políticas neoliberais não podem ser impostas domesticamente, elas são impostas internacionalmente, através de tratados comerciais que incorporam os painéis de disputa estado-investidor”: tribunais globais em que as corporações podem pressionar pela revogação de leis e normas que protegem direitos sociais e ambientais. Quando parlamentares votaram para restringir as vendas de cigarro, proteger reservatórios de água das companhias de mineração, congelar contas de energia ou prevenir empresas farmacêuticas de esfolar o Estado, as empresas entraram com processos, muitas vezes bem sucedidos. A democracia reduz-se a um teatro.
Outro paradoxo do neoliberalismo é que a competição universal apoia-se em comparação e quantificação universal. O resultado é que trabalhadores, desempregados e serviços públicos em geral ficam sujeitos a um sistema de avaliação e monitoramento sufocante e enganador, desenhado para identificar vencedores e punir perdedores. Ao invés de nos libertar do pesadelo burocrático do planejamento central, como propôs Von Mises, ele criou um.
O neoliberalismo não foi concebido como um projeto egoísta, mas rapidamente transformou-se nisso. O crescimento econômico tornou-se visivelmente mais lento na era neoliberal (desde 1980 na Grã Bretanha e nos EUA) do que era nas décadas precedentes; mas não para os ultra ricos. A desigualdade na distribuição de renda e riqueza, depois de 60 anos de queda, aumentou rapidamente na nova era, devido à destruição dos sindicatos, à redução dos impostos, ao aumento dos aluguéis, à privatização e à desregulação.
A privatização ou mercantilização de serviços públicos tais como energia, água, ferrovias, saúde, educação, estradas e prisões habilitou as grandes empresas a colocar uma cabina de pedágio diante de bens essenciais e cobrar rendas, seja dos cidadãos ou do governo, para seu próprio benefício. Renda é um eufemismo para dinheiro ganho sem esforço. Quando você paga um preço inflacionado pelo bilhete de metrô, somente parte da tarifa compensa os operadores por seus custos de combustível, salários e outros gastos. O resto reflete o fato de que você está nas mãos deles.
As pessoas que possuem e administram os serviços privatizados ou semi privatizados do Reino Unido fazem fortunas tremendas investindo pouco e cobrando muito. Na Rússia e na Índia, os oligarcas adquiriram bens estatais através de leilões. No México, Carlos Slim teve garantido o controle de quase todos os serviços de telefonia fixa e móvel e logo tornou-se o homem mais rico do mundo.
Friedrich Rayek (direita) encontra-se com Ronald Reagan. Depois de experimentado no Chile de Pinochet, neoliberalismo difundiu-se a partir dos EUA e Grã-Bretanha, a partir de um lema ("não há alternativas") que desmente a suposta aposta dos defensores da doutrina na "liberdade"
Friedrich Rayek (direita) encontra-se com Ronald Reagan. Depois de experimentado no Chile de Pinochet, neoliberalismo difundiu-se a partir dos EUA e Grã-Bretanha, sob um lema (“não há alternativas”) que desmente a suposta aposta dos defensores da doutrina na “liberdade”
A financeirização, como nota Andrew Sayer em Why We Can’t Afford the Rich, teve impacto semelhante. “Como a renda”, diz ele, “os juros são receita acumulada sem qualquer esforço”. À medida em que os pobres tornam-se mais pobres e os ricos mais ricos, o rico adquire controle crescente sobre outro bem crucial: dinheiro. Pagamentos de juros são, de modo devastador, transferência de dinheiro do pobre para o rico. Os preços dos imóveis e a redução de investimentos estatais sobrecarregam as pessoas com dívidas; mas os bancos e os executivos nadam de braçadas.
Sayer argumenta que as últimas quatro décadas caracterizaram-se por uma transferência de riqueza não apenas do pobre para o rico, mas no interior das categorias de riqueza: daqueles que ganham dinheiro produzindo novos bens ou serviços para aqueles que ganham dinheiro assumindo o controle de ativos já existentes e recolhendo rendas, juros ou ganhos de capital. O ganho produtivo foi superado pelo ganho improdutivo.
As políticas neoliberais estão assoladas por falhas do mercado em todos os lugares. Não apenas os bancos, mas também as corporações encarregadas de entregar os serviços públicos são grandes demais para falir. Como Tony Judt apontou em Ill Fares the Land, Hayek esqueceu-se de que os serviços públicos vitais não podem entrar em colapso, o que significa que a competição não pode determinar seu curso. As empresas levam os lucros, o Estado fica com o risco.
Quanto maior seu fracasso, mais extremada se torna a ideologia. Os governos usam as crises neoliberais tanto como desculpa quanto como oportunidade para baixar impostos, privatizar os serviços públicos restantes, abrir brechas na rede de proteção social, desregular as corporações e re-regular os cidadãos. O Estado que se odeia afunda os dentes em cada órgão do setor público.
Talvez o impacto mais perigoso do neoliberalismo não seja a crise econômica, mas a crise política que causou. Conforme se reduz o domínio do Estado, reduz-se também a possibilidade de mudar o curso de nossas vidas por meio do voto. Ao contrário, assegura a teoria neoliberal, as pessoas podem exercer a escolha pelo consumo. Mas alguns têm mais do que outros para gastar: na grande democracia do consumidor ou do acionista, os votos não são igualmente distribuídos. O resultado é um desempoderamento dos pobres e das classes médiass. Conforme os partidos de direita e a ex-esquerda adotam políticas neoliberais semelhantes, o desempoderamento transforma-se em privação dos direitos civis. Um grande número de pessoas foi varrido da política.
Chris Hedges observa que “movimentos fascistas constroem suas bases não entre as pessoas politicamente ativas, mas entre as politicamente inativas, os ‘perdedores’ que sentem, frequentemente de modo correto, que não têm voz ou papel a desempenhar no establishment politico”. Quando o debate político não faz mais sentido para nós, as pessoas tornam-se suscetíveis a slogans, símbolos e sensações. Para os admiradores de Trump, por exemplo, fatos e argumentos parecem irrelevantes.
Tony Judt explicou que quando a espessa rede de interações entre as pessoas e o Estado é reduzida a nada, a não ser autoridade e obediência, a única força remanescente a nos unir é o poder estatal. O totalitarismo temido por Hayek tem mais probabilidade de emergir quando os governos, tendo perdido a autoridade moral que emana da garantia de serviços públicos, são reduzidos a “persuadir, ameaçar e em última análise coagir as pessoas a obedecê-los.”
Como o comunismo, o neoliberalismo é o Deus que falhou. Mas esta doutrina zumbi continua sua escalada, e uma das razões para isso é o anonimato. Ou antes, um conjunto de anonimatos.
A doutrina invisível da mão invisível é promovida por investidores invisíveis. Devagar, muito devagar, começamos a descobrir o nome de alguns deles. Descobrimos que o Institute of Economic Affairs , que argumentou fortemente na mídia contra a regulação da indústria do tabaco, foi secretamente fundado, em 1963, pela British American Tobacco. Descobrimos que Charles e David Koch, dois dos homens mais ricos do mundo, fundaram o instituto que criou o movimento Tea Party. Descobrimos que Charles Koch, ao instalar um de seus thinktanks, observou que “para evitar críticas indesejáveis, o modo como a organização é controlada e dirigida não deveria ser amplamente divulgada”.
As palavras usadas pelo neoliberalismo com frequência mais ocultam do que elucidam. “O mercado” soa como um sistema natural que pode nos pressionar por igual, como fazem a pressão atmosférica ou da gravidade. Mas está carregado de relações de poder. O que “o mercado quer” tende a significar o que as corporações e seus patrões querem. “Investimento”, como nota Sayer, significa duas coisas bem diferentes. Uma é o financiamento de atividades produtivas e socialmente úteis; a outra é a compra de bens existentes para deles extrair rendas, juros, dividendos e ganhos de capital. Ao usar a mesma palavra para atividades diferentes, “camuflam-se as fontes de riqueza”, levando-nos a confundir extração de riqueza com criação de riqueza.
Há um século, os novos ricos eram desprezados por aqueles que tinham herdado seu dinheiro. Empreendedores buscavam aceitação social transformando-se em rentistas. Hoje, a relação foi invertida: os rentistas e herdeiros definem-se como empresários. Eles afirmam ter construído aq riqueza pela qual não trabalharam.
Esse anonimato e essas confusões se misturam com o fato de o capitalismo moderno não ter nem nome nem lugar. O modelo de terceirizações assegura que os trabalhadores não saibam para quem trabalham. As companhias são registradas através de um sistema secreto de rede de offshores, tão complexo que nem mesmo a polícia pode descobrir seus proprietários e beneficiados. Os arranjos fiscais logram os governos. Ninguém entende os “produtos financeiros”.
O anonimato do neoliberalismo é ferozmente salvaguardado. Aqueles que são influenciados por Hayek, Mises e Friedman tendem a rejeitar o termo, sustentando – com alguma justiça – que ele é hoje usado apenas pejorativamente. Mas não nos oferecem substitutos. Alguns descrevem-se como liberais ou ulta-liberais (libertarians) clássicos, mas essas descrições são ambas enganosas e curiosamente autodissipadoras, uma vez que sugerem não haver nada de novo em O Caminho da Servidão (The Road to Serfdom), Bureocracy ou o clássico trabalho de Friedman, Capitalismo e Liberdade (Capitalism and Freedom).
Por tudo isso, há algo admirável sobre o projeto neoliberal, ao menos em seus estágios iniciais. Era uma filosofia distinta e inovadora, promovida por uma rede coerente de pensadores e ativistas com um claro plano de ação. Era paciente e persistente. O Caminho da Servidão (The Road to Serfdom) tornou-se o caminho para o poder.
O triunfo do neoliberalismo reflete também o fracasso da esquerda. Quando a teoria do laissez-faire econômico levou à catástrofe em 1929, Keynes inventou uma extensa teoria econômica para substituí-la. Quando o gerenciamento da demanda keynesiana bateu no teto, nos anos 70, havia, pronta, uma alternativa conservadora. Mas quando o neoliberalismo desmoronou, em 2008, não havia nada. É por isso que o zumbi anda. Em 80 anos, a esquerda e o centro não produziram um novo sistema geral de pensamento econômico.
Toda invocação de Lord Keynes é uma admissão de fracasso. Propor soluções keynesianas às crises do século 21 é ignorar três problemas óbvios. É difícil mobilizar as pessoas em torno de velhas ideias; as falhas expostas nos anos 1970 não desapareceram; e, mais importante, o projeto não tem nada a dizer sobre nosso problema mais grave: a crise ambiental. O keynesianismo funciona pelo estímulo da demanda de consumo para promover crescimento econômico. Demanda de consumo e crescimento econômico são os motores da destruição ambiental.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Zizek e a banalidade do mal, sob o capitalismo

Para filósofo, “Panama Papers” revelamsonegar, esconder dinheiro eespecular não são perversidades de gananciosos – mas a regra do jogo, no sistema
Por Slavoj Zizek | Tradução: Antonio Martins
A única coisa de fato surpreendente no vazamento dos Panama Papers é que não há, neles, surpresa alguma. Eles não mostraram exatamente o que esperávamos encontrar? Sim, uma coisa é saber sobre contas offshore em geral, e outra é ver a prova concreta. É como se alguém soubesse que seu parceiro está saindo com outra pessoa – é possível aceitar a consciência abstrata do fato, mas a dor emerge ao saber dos detalhes picantes. E ao ter contato com as fotos… Agora, com os Panama Papers, estamos chocados com algumas das imagens sujas da pornografia financeira dos super-ricos, e não podemos mais fingir que não sabemos.
Em 1843, o jovem Karl Mark afirmou, sobre o ancien régime alemão: “imagina que acredita em si mesmo e pede que o mundo imagine o mesmo”. Em tal situação, apontar a vergonha dos poderosos torna-se uma arma. Ou, como prosseguia Marx, “para que a pressão torne-se mais intensa é preciso acrescentar a ela a consciência da pressão; para tornar a vergonha mais vergonhosa, é preciso torná-la pública”.
Esta é, hoje, nossa situação: defrontamo-nos com o cinismo desavergonhado da ordem global, cujos agentes apenas imaginam que acreditam em suas ideias de democracia, direitos humanos, etc; mas por meio de vazamentos como os do WikiLeaks ou dos Panama Papers, a vergonha – nossa vergonha por tolerar tal poder sobre nós – torna-se mais intensa ao vir a público.
Uma rápida olhada nos Panama Papers revela algo muito bom e algo muito ruim. O positivo é a solidariedade geral dos participantes. No mundo nebuloso do capital global, todos são irmãos. O mundo ocidental desenvolvido está lá, incluindo os impolutos escandinavos, e eles dão as mãos a Vladimir Putin. O presidente chinês, Xi, o Irã e a Coreia do Norte também comparecem. Muçulmanos e judeus trocam piscadelas amistosas – é um reino verdadeiro de multiculturalismo, onde todos são iguais e todos diferentes. O lado negativo: a comovente ausência dos Estados Unidos, o que dá alguma razão às alegações de russos e chineses, segundo os quais há interesses políticos associados ao vazamento.
Mas então, o que temos a ver com todos estes dados? A primeira reação (e a predominante) é a explosão de raiva moralista, é claro. Mas o passo indispensável é mudar de assunto imediatamente, da moral para nosso sistema econômico: políticos, banqueiros e executivos sempre foram gananciosos. A questão é: o que há em nosso sistema legal ou econômico que lhes permite realizar esta ganância com tanta desenvoltura?
A partir do colapso financeiro de 2008, figuras públicas, a partir do Papa, bombardeiam o mundo com apelos para lutar contra a cultura de ganância e consumismo. Segundo um dos teólogos próximos ao Papa, “a atual crise não é uma crise do capitalismo, mas da moralidade”. Mesmo setores da esquerda seguem esta trilha. Não há falta de anticapitalismo, atualmente. Os protestos do Occupy explodiram há alguns anos, e continuamos a assistir uma sobrecarga de crítica aos horrores do sistema. Abundam livros, reportagens em profundidade nos jornais e vídeos na TV sobre como as corporações poluem desregradamente a natureza; ou como banqueiros corruptos continuam a ganhar bônus milionários, enquanto seus bancos são salvos com dinheiro público; ou sobre fábricas insalubres onde crianças trabalham em jornadas desumanas.
No entanto, há uma armadilha em todo este fluxo de crítica: não se questiona o quadro democrático-liberal em que se dá a luta contra tais excessos. O objetivo, explícito ou implícito, é democratizar o capitalismo, estabelecer controle democrático da economia, por meio da pressão da mídia, de leis mais duras, de investigações policiais honestas. Mas o sistema como tal não é questionado, e seu quadro institucional de “estado de Direito” permanece como vaca sagrada, que não é questionada sequer pelas formas mais radicais de “anticapitalismo ético”, como as do movimento Occupy.
Para compreender qual erro é preciso evitar, vale lembrar de uma história – talvez apócrifa — do economista John Galbraith, keynesiano de esquerda. Antes de uma viagem à União Soviética, no final dos anos 1950, ele escreveu para Sidney Hook, um amigo anticomunista. “Não se preocupe, eu não serei seduzido pelos soviéticos, nem voltarei dizendo que eles vivem sob o socialismo”. Hook respondeu de imediato: “É isso que me preocupa: que você volte contando que a União Soviética não é socialista!” O que preocupava Hook era a defesa ingênua da pureza do conceito: se a construção de uma sociedade socialista fracassou, isso não invalida a ideia em si – apenas demonstra que ela não foi adequadamente realizada. Não é possível detectar a mesma ingenuidade nos fundamentalistas de mercado de hoje?
Há alguns anos, o intelectual francês Guy Sorman afirmou, num debate na TV, que a democracia e o capitalismo necessariamente andam juntos. Não resisti a perguntar: “mas e a China?” Sorman retrucou: “Na China, não há capitalismo!” Para ele, um defensor fanático do capitalismo, se um país não é democrático, isso automaticamente significa que não pode ser verdadeiramente capitalista. Adota uma versão deturpada, exatamente como, para um comunista democrático, o stalinismo era, apenas, uma forma não autêntica de comunismo.
Não é difícil identificar o erro subjacente. É o mesmo de um chiste conhecido: “Minha noiva nunca estará atrasada para um encontro, porque no momento em que estiver, não será mais minha noiva”. É assim que os defensores da sociedade de mercado explicam hoje a crise de 2008: não foi o fracasso do livre mercado que a causou, mas o excesso de regulação estatal, ou seja, o fato que nossas economias de mercado não eram autênticas, ainda tinham traços de Estado de Bem-estar Social. A importância dos Panama Papers é, precisamente, mostrar a falsidade desta alegação. A corrupção não é um desvio contingente do sistema capitalista global – é parte essencial de seu funcionamento.
A realidade que emerge do vazamento é uma divisão de classes, muito simples de compreender. Os documentos demonstram como os super-ricos vivem num mundo à parte, em que vigoram outras regras, em que o sistema legal e a ação da autoridade policial são inteiramente distorcidos, não apenas para proteger os ricos, mas para moldar o sistema legal de forma a acomodá-los.
Já começaram a surgir reações da direita liberal aos Panama Papers. Elas jogam a culpa nos excessos do Estado de Bem-estar Social, ou no que resta dele. Alegam que, como os ricos são pesadamente tributados, eles naturalmente tentam deslocar-se para países com impostos mais baixos, o que não é, em última instância, ilegal. Embora ridículo, este argumento tem um núcleo de verdade, e chama atenção para dois pontos. Primeiro, a linha que separa as transações legais das ilegais está se apagando muito rapidamente, e com frequência se reduz a uma diferença de interpretação. Segundo, proprietários de riqueza que deslocaram suas fortunas para contas offshore e paraísos fiscais não são monstros de ganância, mas indivíduos que apenas agem como sujeitos racionais que tentam proteger sua riqueza. No capitalismo, não é possível jogar a água suja da especulação financeira e ficar com o bebê saudável da economia real. A água suja é, na verdade, a linhagem do bebê saudável.
Não deveríamos ter medo de ir até o fim. O sistema legal do capitalismo globalizado é, na sua dimensão mais fundamental, a corrupção legalizada. A questão de onde começa o crime (que operações financeiras são ilegais) não é um tema jurídico, mas eminentemente político, relacionado a relações de poder .
Então, por que milhares de capitalistas e políticos fazem o que está revelado pelos Panama Papers? A resposta é a mesma da piada vulgar. Por que os cachorros lambem suas bolas? Porque eles podem…
Texto original: Outras Palavras

sábado, 26 de março de 2016

O retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador

O que faz de uma obra um clássico? Entre as razões, estão o reconhecimento de sua importância pelos pares e a sua capacidade de explicação de um fenômeno continuar válida ao longo do tempo. Essas condições estão presentes na obra de Albert Memmi, escrita na década de 1950, porém, passadas algumas décadas a obra mantém sua aura de atualidade.

Na primeira parte do livro, prefaciado por Jean-Paul Sartre, Memmi expõe o retrato do colonizador, que toma duas possíveis faces: aquele colonizador que recusa a si mesmo pela defesa do colonizado, mas nem por isso elimina a sua condição, e aquele colonizador que aceita a si mesmo e não apresenta as contradições do primeiro, sendo um ser naturalmente defensor da condição colonialista e de todos os males de miséria e de ignorância que ela produz.

Na segunda parte, o autor aborda o retrato do colonizado. Primeiramente, a sua condição é retratada de modo uniforme, ou seja, coletiva e de conotação negativa, utilizando-se da ideologia para a construção e o reforço dessa imagem. Segundo Memmi, “toda ideologia de combate compreende, como parte integrante de si mesma, uma concepção do adversário. Ao aceitar essa ideologia, as classes dominadas confirmam, de certa maneira, o papel que lhes foi atribuído. Isso explica, entre outras coisas, a relativa estabilidade das sociedades; a opressão é, de boa ou má vontade, tolerada pelos próprios oprimidos”.

 Em seguida, o autor explora a situação do colonizado em relação a seus valores, ao seu histórico, à amnésia cultural, a sua condição de carência etc. Para ele, “a sociedade colonizada é uma sociedade enferma em que a dinâmica interna não consegue mais produzir estruturas novas. Seu rosto endurecido pela história não passa de uma máscara, sob a qual ela sufoca e agoniza lentamente. Uma sociedade como essa não pode assimilar os conflitos de gerações, pois não se deixa transformar”.

 Por fim, Memmi expõe duas respostas possíveis desse colonizado: cultivar o amor pelo colonizador e o ódio de si, que o autor acha inapropriado, e aquela que é sua defesa, a revolta. De acordo com ele, “para o colonizado, não há outra saída a não ser a consecução do fim da colonização. E a recusa do colonizado só pode ser absoluta, isto é, não apenas revolta, mas superação da revolta, ou seja, revolução”.

O ponto central da obra é a negação da opressão colonizadora, que deve partir de uma consciência do colonizado de sua condição degradante para que este possa ter sua libertação completa, ou para a reconquista de si mesmo, fugindo de uma condição que desmoraliza, não só materialmente, mas espiritualmente também. Para tal, o colonizado deve não apenas se revoltar, mas, sim, fazer uma revolução.

Diante da contemporaneidade dos fatos, ainda há uma carência de obras em português, mas o livro de Memmi contempla de maneira satisfatória as origens das revoltas. O colonialismo analisado sob a ótica ocidental é abundante. Nesse caso, um ponto a mais de interesse dessa obra são a origem e o histórico do autor. Filósofo e sociólogo, Memmi nasceu na Tunísia, em 1920, ainda sob o domínio francês, e viveu as contradições de ter origem judaica em um mundo mulçumano. Após a independência, também não encontrou espaço na Tunísia liberta, optando por viver na própria França, onde lecionou no Centro Nacional de Pesquisa e na Universidade de Paris (Sorbonne).

Link para download do PDF - O retrato do Colonizado precedido do retrato do colonizador.

https://drive.google.com/open?id=0BzyjgIVXNVLGWU9wd3gwT2YzNVU

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A identidade europeia, o racismo e a Geografia Colonial

Segundo o dicionário Michaelis a palavra orientar significa: guiar, seguir um rumo, se adaptar a direção de pontos cardeais. Etimologicamente a construção do verbete orientar está associada à Oriente cujo significado é espacial, designando uma das formas de dividir planeta (em hemisférios).

É no oriente que estão localizadas algumas das mais antigas civilizações, entre elas a civilização chinesa. Na história do desenvolvimento das sociedades, inicialmente a centralidade do mundo estava localizada no oriente, sobretudo na China, que detinham domínio das artes (escrita, medicina, astronomia, etc), poderio econômico, militar, político e cultural. Dessa forma, o padrão de desenvolvimento sócio-político-cultural estava centrado no oriente, daí a origem da palavra orientar explicada anteriormente.

Durante esse período de domínio da “civilidade oriental”, a Europa era apenas um agrupamento de territórios onde inexistia o conceito de nação e muito menos o de identidade europeia. Dessa forma, o que hoje entendemos como Europa era apenas um “apêndice” da Ásia. Porém, a partir do advento das grandes navegações (associadas a formação dos Estados Nacionais), e consequente chegada dos europeus a América, essa situação de centralidade-periferia começa a inverter-se. Pois a partir da América, a Europa, inicialmente através dos Ibéricos começa a explorar de várias formas o Novo Mundo. Nesse mesmo momento, a Europa desenvolve a ideia de identidade europeia, algo até então inexistente entre os nativos do “velho mundo”.

A criação desse ideal europeu identitário redefiniu e criou novas identidades subalternas. O oriente passa por um rebaixamento de seu status, e “criam-se” as figuras dos índios, negros e mestiços. Essas passam a ser formas de identificação social inferiores ao “ideal humano” representado pelas figuras europeias. Tal processo é o primeiro momento de potencialização do racismo. Sobre o racismo na dominação colonial Aníbal Quijano diz:

“Na América, a ideia de raça foi uma maneira de outorgar legitimidade às relações de dominação impostas pela conquista. A posterior constituição da Europa como nova identidade depois da América e a expansão do colonialismo europeu ao resto do mundo conduziram à elaboração da perspectiva eurocêntrica do conhecimento e com ela à elaboração teórica da ideia de raça como naturalização dessas relações coloniais de dominação entre europeus e não-europeus. Historicamente, isso significou uma nova maneira de legitimar as já antigas ideias e práticas de relações de superioridade/inferioridade entre dominantes e dominados. Desde então demonstrou ser o mais eficaz e durável instrumento de dominação social universal, pois dele passou a depender outro igualmente universal, no entanto mais antigo, o intersexual ou de gênero: os povos conquistados e dominados foram postos numa situação natural de inferioridade, e conseqüentemente também seus traços fenotípicos, bem como suas descobertas mentais e culturais. Desse modo, raça converteu-se no primeiro critério fundamental para a distribuição da população mundial nos níveis, lugares e papéis na estrutura de poder da nova sociedade. Em outras palavras, no modo básico de classificação social universal da população mundial.”

Trezentos anos depois da chegada dos europeus na América, um outro evento de grande magnitude social balança as estruturas políticas europeia. A eclosão da Revolução Francesa vai derrubar as amarras do Antigo Regime. E tendo como lema "liberté, égalité, fraternité" (liberdade, igualdade, fraternidade) a ser difundido pelo mundo, tinha-se criado um problema para a sociedade europeia, pois a “igualdade” colocaria em equidade (na teoria) as “raças inferiores” (negros, índios e mestiços). Não por acaso, nesse período e ao longo de todo século XIX, vão surgir teorias para tentar comprovar a inferioridade biológico-social das “raças inferiores”.


No início do século XIX o tecido social da América Latina está em crescente ebulição, ocorrendo as independências das colônias americanas e o crescente poderio dos Estados Unidos. Nesse tabuleiro político, as nações europeias já não tinham grande vantagem de exploração colonial da América e se voltam para o continente africano até então desconhecido em sua quase totalidade.

Dois vetores de exploração (um associado ao outro) foram importantes na dominação da África por parte das potencias europeias; o capitalismo e a Geografia colonial. A Revolução Industrial transformou as formas de produção vigente até então, e, como reflexo, as relações capitalistas foram cambiadas e surgiram necessidades cada vez maiores de matéria prima e mão de obra. Cabe ressaltar, que os europeus já haviam cartografado a África desde 1497 com a viagem de Vasco da Gama para as Índias, porém, só haviam bordeado o continente e o interior ainda era uma incógnita. O “atraso” da exploração da África como um todo está associado as dificuldades que o meio ambiente africano, extremamente hostil, ofereceu aos colonizadores. Dificuldades de acesso a água, geomorfologia acidentada, rios com navegação difícil, clima agressivo, desertos,  esses fatores só puderam ser transpostos com avanços na técnica de exploração.

A relação entre a geografia europeia e o colonialismo do século XIX é siamesa. Trata-se de gerar um levantamento exaustivo dos lugares do mundo extra-europeu, identificando riquezas potenciais (recursos naturais), caminhos e obstáculos à penetração capitalista nestes distantes rincões. Esse trabalho, coube aos exploradores (financiados pelas Sociedade Geográficas, que recebiam subsídios dos Estados Nacionais ou empresas privadas) que desbravaram locais até então desconhecidos (como as nascentes do Nilo) e trouxeram à tona sociedades não estruturadas na lógica capitalista de sociedade. Na inserção desses novos territórios ao controle da metrópole articulou-se uma dialética entre a construção material e a construção simbólica do espaço, que unifica num mesmo movimento processos econômicos, políticos e culturais. O território material é referência para formas de consciência e representação, cujos discursos retroagem no processo de produção material do espaço, com o imaginário territorial comandando a apropriação e exploração dos lugares.

“Como próspero, o colonizador europeu sabia da importância da cultura e temia a ameaça que provém de homens conscientes da própria história e plenos de confiança no valor das próprias tradições. Do contrário, por que teria mobilizado tudo – potência militar, fé religiosa, força intelectual – para negar aos africanos seus próprios deuses, sua cultura, o significado de sua civilização?”   (James Ngugi. A África que progride precisa de seu passado)


O aparelho colonial europeu resultou mais tarde no Tratado de Berlim, repartição impositiva da África por parte das potências europeias, ato político que deixou marcas coloniais/raciais nos africanos até os dias atuais. Além do que, a partilha africana adiou a guerra mundial por trinta anos. Na primeira metade do século XX, vimos eclodir as duas guerras mundiais e o início do processo de descolonização da África, processos que tiveram reflexos a partir da segunda metade do século vinte onde, para os Africanos, a Geografia Colonial (política) começava a ser derrubada (o que não significou o fim das dependências dos Estados africanos) e surgia aquele que seria o embrião de uma nova identidade europeia, agora conformada em forma de bloco econômico, ainda que em caráter insipiente, mas, chegando ao que é hoje a União Europeia e sua ambição de unidade em várias diretrizes.

O que o samba pode te ensinar



Por Stephanie Ribeiro

(Um texto para o meu avô, que aos domingos 
colocava um álbum do Martinho da Vila 
e me tirava pra dançar)

Não pense que a denúncia da desigualdade surgiu com o rap. Vasto repertório de canções expressa, há décadas, re-existência e criatividade dos negros, num país que os queria apenas como braços


Como já disse Nina Simone, é dever do artista mostrar os tempos em que vivemos. Com os cantores de samba não foi diferente. Ao contrário do que muitos imaginam, não foi só quando surgiu o rap que o negro passou a fazer críticas e denúncias ao contexto social que estamos inseridos.
São canções feitas há anos, nas décadas de 1950 a 80, que se hoje fossem escutadas por nós ainda fariam sentido e seriam facilmente identificadas com nossas atuais vivências. A origem do samba por si só explica o porquê esse ritmo negro fala tanto sobre nós:
“Uma das formas mais comuns pelas quais os negros reafirmavam seus laços de amizade e cooperação ocorria durante as festas nas casas das “tias” ou das “vovós”. As casas das “tias” e das “vovós” eram grandes pontos de encontro daquelas comunidades. Durante essas festas, ocorria a celebração de rituais religiosos, o oferecimento de variados pratos de comida e a execução de diferentes manifestações musicais. Usualmente, aqueles que frequentavam essas festam diziam que frequentavam o “samba” na casa da vovó (ou da titia). Dessa maneira, antes de surgir a música “samba” o termo era sinônimo de festa. Outros pesquisadores do assunto ainda relatam que o termo “samba” tem origem no termo africano “semba”, que era comumente utilizado para designar um tipo de dança onde os dançarinos aproximam seus ventres fazendo uma “umbigada”. Segundo o dicionário Aurélio o termo originário ainda significa “estar animado” ou “pular de alegria”.
Não precisamos sequer de um explicação tão grande, basta escutar as canções de Martinho da Vila “Batuque na Cozinha” ou “Segure Tudo” e identificar a batida de terreiro, que já entenderíamos de onde vem o samba. É uma música feita sobre nós negros numa época em que essa era uma forma de explicitar a vida cotidiana do preto pobre brasileiro, os marginalizados que viviam nas periferias formadas no pós-abolição. E como muita coisa não mudou, ainda hoje temos nossa realidade refletida em algumas canções.
Por exemplo, hoje muito se fala de apropriação cultural, mas o sambista Geraldo Filme na canção “Vai Cuidar da Sua Vida” já cantou:
“Crioulo cantando samba/ Era coisa feia / Esse é negro é vagabundo / Joga ele na cadeia / Hoje o branco tá no samba / Quero ver como é que fica / Todo mundo bate palmas / Quando ele toca cuíca.”

O mesmo sambista na canção “Garoto de Pobre” esmiuçou sobre a realidade do pobre brasileiro:
“Garoto de pobre / só pode estudar / em escola de samba / Ou ficar pelas ruas / jogado ao léu (…) Ele desce dos morros / ele vem das vilas / e chega a cidade / alegra os turistas / recebe os aplausos da sociedade”
Em tempos onde ficamos compartilhando em redes sociais fotos de crianças negras trabalhando nas ruas, com textos bonitos, precisamos escutar mais o que Geraldo Filme cantou.  E assim começar a questionar essa realidade na qual estamos inseridos para não acreditarmos que tais atos e “textos bonitos” são empatia.
Bezerra da Silva já mostrou como as pessoas quando não romantizam a pobreza, criminalizam-na, como na música “Vítimas da Sociedade”:
“Se vocês estão a fim de prender o ladrão / Podem voltar pelo mesmo caminho / O ladrão está escondido lá embaixo / Atrás da gravata e do colarinho (…) / Só porque moro no morro / A minha miséria a vocês despertou / A verdade é que vivo com fome / Nunca roubei ninguém, sou um trabalhador / Se há um assalto à banco / Como não podem prender o poderoso chefão / Aí os jornais vêm logo dizendo que aqui no morro só mora ladrão.”
Ele ainda conclui:
“Somos vítimas de uma sociedade / Famigerada e cheia de malícias / No morro ninguém tem milhões de dólares / Depositados nos bancos da Suíça.”
As letras denunciam situações até sobre a forma como o samba foi apropriado e seus cantores embranquecidos para que o gênero fosse aceito:
Samba / Negro, forte, destemido / Foi duramente perseguido / Na esquina, no botequim, no terreiro / Samba /Inocente, pé-no-chão / A fidalguia do salão / Te abraçou, te envolveu / Mudaram toda a sua estrutura / Te impuseram outra cultura / E você nem percebeu.”
A música acima “Agoniza Mas não Morre” de Nelson Sargento, facilmente explica o que aconteceu com o Blues, Rock e vem acontecendo com o Funk e até mesmo com o Rap.
É obvio que além de denunciar, os sambas também tomam como partido o enaltecimento da cultura negra. Uma das músicas que mais me emociona é “Orgulho Negro” da Jovelina Pérola Negra:
“Negro é raiz / Negro é raiz / Me orgulho por isso / me sinto feliz / Negro é raiz / Negro é raiz /Negro é raiz / Na senzala, o negro não tinha sossego / Ao ver a chibata / Tremia de medo / Fazia de tudo para não apanhar / Só sentia em seu rosto suor escorria / trabalhando embaixo do sol de meio-dia / Se sacrificando para se libertar / Recordando / O homem no tronco apanhando / os olhos dos outros só lacrimejando / pedindo clemência para ele descansar / É ou não é raiz?”
E nossa maravilhosa Dona Ivone Lara já cantou que o negro é a raiz da Liberdade, em “Sorriso Negro”:
“Um sorriso negro, um abraço negro / Traz….felicidade / Negro sem emprego, fica sem sossego / Negro é a raiz da liberdade/ (…) Negro que já foi escravo / Negro é a voz da verdade / Negro é destino é amor / Negro também é saudade.. (um sorriso negro!)”

Muitas pessoas falam de letras que são machistas e eu reconheço que tem sim sambas que reproduzem ideias que inferiorizam as mulheres, assim como em todos os gêneros musicais. Mas duvido que alguém encontre uma música na década de 50 como a de Cartola “Vou Contar Tintim por Tintim”:
“Eu fui tão maltratada / Foi tanta pancada / Que ele me deu / Que estou toda doída / Estou toda ferida / Ninguém me socorreu / Ninguém lá em casa apareceu / Mas eu vou ao distrito / Está mais do que visto / Isto não fica assim / Vou contar tintim por tintim / Tudo nele eu aturo / Menos tapas e murros / Isto não é para mim”
As sambistas mulheres negras também eram não só questionadoras como atemporais nas questões que envolvem o universo feminino. Chiquinha Gonzaga em “Dois Corações” já dizia:
“Dei o meu a aquele ingrato / Que não soube me amar / Conheci duas meninas / Todas as duas eu quero muito bem / Uma mais do que a outra / Uma mais do que a outra / E a outra mais do que ninguém”
E tem até trechos empoderadores como na canção “Luz do Repente” da já supracitada Jovelina Pérola Negra:
“Eu sou partideira da pele mais negra / Que venho, que chego para improvisar / Já vi partideiro que nunca vacila / Entrando na fila, querendo versar / Mas dou um aviso que meu improviso / É sério, é ciso, não é de brincar / Otário com aço, eu mando pro espaço / Versando, eu faço o bicho pegar”

Vamos entender que se fala na origem do samba atrelada a uma mulher, a tão citada por alguns sambistas: Tia Ciata. Ela seria a dona do quintal “Berço do Samba”, mas também segundo alguns, era uma das que cantavam sambas anteriormente à década de 50, por isso não coloquei nesse texto nada que fixe a origem do samba exatamente. Acredito que ele tem origens negras, portanto, me dói quando vejo pessoas dando a Noel Rosa um título de grande nome desse gênero musical num país onde Geraldo Filme já disse: “Sambista de rua morre sem glória”
Por fim:
“Eu sou o samba / A voz do morro sou eu mesmo sim senhor /Quero mostrar ao mundo que tenho valor / Eu sou o rei do terreiro / Eu sou o samba / Sou natural daqui do Rio de Janeiro / Sou eu quem levo a alegria / Para milhões de corações brasileiros / Salve o samba, queremos samba / Quem está pedindo é a voz do povo de um país / Salve o samba, queremos samba / Essa melodia de um Brasil feliz”
Sim Zé Kéti, a “Voz do Morro” é o samba.
Eu cresci escutando sambas como os então citados, principalmente Martinho que era um dos grandes ídolos do meu avô Daniel. Foi “Canta Canta Minha Gente” que me inspirou para esse texto. E hoje eu percebo a importância de ter tido uma figura como ele na minha vida, que me tirava para dançar, que me fazia rir quando dançava miudinho, que me ensinou que nem todos os homens vão me tratar mal, enquanto meu pai se esquecia da minha existência… Meu avô foi também a minha referência negra dentro de casa. E hoje eu lamento muito não poder mostrar para ele a mulher, que ele também educou.
Nós negros crescemos acreditando num passado perdido e triste quando na verdade muitos lutaram por nós. Essas letras mostram uma intelectualidade ritmada, um pensar nosso. Para mim hoje é fácil saber que eu vou ser arquiteta, porque meu avô pintava paredes, porque minha bisavô lavava roupa para fora, porque alguém sobreviveu mesmo quando nós negros éramos tratados como escravos. Eu acho que temos que entender o passado para viver o presente e conquistar um futuro. Por isso busquei inspiração nas letras de samba, que são heranças que negros nos deixaram e precisamos usá-las…
Para o meu avô eu cantaria Cartola: “Você também me lembra a alvorada / Quando chega iluminando / Meus caminhos tão sem vida…”
E ele me responderia:
“Canta Canta, minha Gente / Deixa a tristeza pra lá / Canta forte, canta alto / Que a vida vai melhorar (…) Cantem o samba de roda / O samba-canção e o samba rasgado / Cantem o samba de breque, / O samba moderno e o samba quadrado.”
Stephanie Ribeiro é estudante de Arquitetura e Urbanismo na PUC de Campinas. Ativista feminista negra, já teve textos seus postados no site da revista Marie Claire, Blogueiras Negras, Géledes, Confeitaria, Modefica, Imprensa Feminista, Capitolina, entre outros. Em 2015, recebeu da Assembleia Legislativa de São Paulo a Medalha Theodosina Ribeiro, que homenageou seu ativismo em prol das mulheres negras.
É também uma das fundadoras do projeto Afronta – http://www.afronta.org/.
Texto original: Outras Palavras